quarta-feira, 1 de março de 2017

Olhar Deus face a face. Artigo de Gianfranco Ravasi

Olhar Deus face a face. Artigo de Gianfranco Ravasi
                                           
A epifania divina está na palavra criadora e salvadora que rompe a noite do nada. Esse contraste entre visibilidade e mistério constitui a mais incisiva representação da dialética transcendência-imanência própria do divino. Testemunha altíssima desse cruzamento é a história da arte.

A análise é de Gianfranco Ravasi, cardeal presidente do Pontifício Conselho para a Cultura, em artigo publicado no jornal Il Sole 24 Ore, 18-11-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"Deus falou a vocês do meio do fogo. Vocês ouviram o som das palavras, mas não viram nenhuma forma: ouvia-se apenas uma voz". Assim Moisés, no livro do Deuteronômio 4,12, resume a experiência vivida por Israel no Sinai. Daquele pico, de fato, havia descido o gélido preceito que abre o Decálogo: "Não farás para ti imagem alguma...". A epifania divina está na palavra criadora e salvadora que rompe a noite do nada: "No princípio, Deus disse: Faça-se a luz!".
É ainda Moisés que ouve o Senhor responder: "Tu não poderás ver o meu rosto, porque ninguém pode vê-lo e continuar com vida". Assim, há um dramático silêncio icônico na religião bíblica. Um silêncio que, no entanto, é potente e paradoxalmente rompido.
De fato, o Deus bíblico não é um nume obscuro, semelhante a "um emaranhado de fios do qual não se encontra o início", como se dizia do deus sumério Enlil. Ele é uma pessoa que usa o pronome "eu" e o verbo fundamental do "ser": "Eu sou aquele que sou", declara a Moisés na sarça ardente. Na realidade, o antropomorfismo se torna uma via representativa constante, sendo o homem e a mulher a sua "imagem" viva: "E Deus criou o homem à sua imagem; à imagem de Deus ele o criou; e os criou homem e mulher" (Gênesis 1,27). Por isso, ele terá um rosto, uma boca, orelhas, até um nariz que bufa na "ira" (em hebraico, o onomatopaico 'af que encarna o "soprar" indignado), braços, mãos, pés, coração e se revelará como pai, mãe, esposo e assim por diante. Por isso, com evidente oxímoro (paroxismo) com relação à citada negação da exposição do rosto, dir-se-á de Moisés que, com ele, o Senhor "falava face a face, às claras e sem enigmas; e ele vê a imagem do Senhor" (Números 12,8).
O ápice é atingido no cristianismo, onde a Palavra divina eterna e transcendente se faz sarx, "carne", ou seja, figura humana com um rosto preciso, ações e palavras concretas, nascimento e morte. E é São Paulo que define Jesus Cristo como eikôn, "ícone/imagem do Deus invisível" (Colossenses 1,15). Esse contraste entre visibilidade e mistério, coexistente em contraponto, constitui a mais incisiva representação da dialética transcendência-imanência própria do divino.
Testemunha altíssima desse cruzamento é a história da arte, e um estudioso francês, historiador e teólogo, professor da Universidade de Estrasburgo, François Boespflug, tentou contar a sua história em um ensaio monumental, que, a nosso ver, é uma verdadeira joia crítica, fruto de 30 anos de pesquisas e análises iconográficas. É um daqueles livros absolutamente indispensáveis para todos aqueles que querem seguir a trama artística dos dois milênios que temos às costas no seu filão mais significativo, e é – devemos confessar com uma ponta de inveja – uma daquelas obras que sonhamos em vão em sermos capaz de escrever.
Felizmente ela está agora diante de nós com as suas 12 etapas que marcam diacronicamente a história icônica de Deus. E é justamente partindo do "peso do Decálogo", com a sua proibição e as relativas recaídas, assim como com a herança judaica que o cristianismo arrasta consigo e supera, que se começa uma grandiosa aventura. Ela tem a sua primeira teofania na arte paleocristã, em que triunfa o modelo "cristomorfo", que consiste em retratar Deus como Cristo, baseando-se nas declarações do Jesus joanino: "Quem me vê viu o Pai... Eu e o Pai somos um".
Logo depois entra em cena o campo de batalha preparado pelo iconoclasmo, reação à quebra dos ícones, um choque que – para além das suas iridescências políticas – revela o duelo entre duas teologias às quais o segundo Concílio de Niceia (787) irá atribuir um ponto firme com a vitória dos ícones. Abre-se, assim, uma nova fase histórica que Boespflug chama de "fé visionária", justamente porque impera a visão do Pantocrator, mas também da Trindade confiada à célebre cena simbólica dos três hóspedes de Abraão (Gênesis 18).
Entram em cena os quatro séculos que vão do advento dos carolíngios (751) ao Concílio Lateranense II (1215), nos quais incumbe a Majestas Domini que é a releitura ocidental do Pantocrator oriental e é a livre e criativa reproposição da Trindade. A exploração visual desse dogma continua nos dois séculos seguintes, com a suntuosa multidão das Trindades europeias de perfis muito originais e até surpreendentes, prontos até mesmo ao recurso do símbolo geométrico e ao apofatismo.
Esse desvio é freado no século XV pelo ingresso do Deus patético e familiar com as piscadelas audazes, por exemplo, de um autor como o Mestre de Rohan (1430). Mas já está à porta a Reforma Protestante com todas as suas reservas e objeções às imagens e ao culto, objeções que geram a réplica do Concílio de Trento e da arte barroca. A tensão, na realidade, produz um fecundo e impressionante aparato artístico que é examinado em um poderoso capítulo de múltiplas e fascinantes facetas.
Agora, no entanto, já bate à porta o século das Luzes, que coloca em crise a imagem de Deus, mas também "a pintura religiosa que conhece uma clara queda, enquanto a inspiração bíblica da arte parece no ponto de se secar". Não faltam os sobressaltos (pense-se nos Nazarenos), mas o declínio parece ter começado, confirmado também pelo progressivo divórcio entre "grande arte" e "arte da Igreja" que se consuma no século XX.
Porém, se é verdade que se assiste ao eclipse da figura do Pai, tem-se um retorno da veemência humana do Crucificado (por exemplo, Rouault, o próprio Picasso, Chagall, Bacon, Baselitz, Rainer), enquanto o Concílio Vaticano II tenta retomar o diálogo, apresentando uma Igreja "amiga das artes", com muita dificuldade e com tentativas que ainda estão em andamento e das quais eu sou, em certo sentido, a própria testemunha direta, patrocinando uma primeira presença da Santa Sé na Bienal de Veneza.
Para evitar a objeção de que o seu itinerário é apenas eurocêntrico – escolha, além disso, necessária no mérito – a última etapa está reservada por Boespflug ao "Deus cristão fora da Europa" dos séculos XVI a XX, atestando assim também, nesse âmbito, o fenômeno da inculturação.
O esqueleto que aqui traçamos não dá conta da magnificência exegética, documental, iconológica e iconográfica da obra do estudioso francês. Ser levado pela mão por ele não é apenas participar de uma excepcional experiência didática, mas também é, ao mesmo tempo, viver uma verdadeira aventura do espírito, da cultura, da fé.
De fato, "o cristianismo latino é o único dos três monoteísmos que tolerou, depois aceitou, legitimou, suscitou e praticou uma extraordinária galeria de retratos do Deus único. Que ousou explorar o seu íntimo mistério, o seu segredo. Que, ao fazê-lo, empregou tanto talento e tanta audácia".
François Boespflug, Dieu et ses images: une histoire de l'Eternel dans l'Art, Paris, Bayard, 2008, 534 p.
Le immagini di Dio. Una storia dell'Eterno nell'arte. Torino, Einaudi, 2012, 582 p.


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