sábado, 8 de setembro de 2012


Os dons do Espírito Santo



Em síntese: Os dons do Espírito Santo são como “receptores” aptos a captar os impulsos do Espírito mediante os quais o cristão se encaminha para a perfeição em estilo novo ou com a eficácia que o próprio Deus lhe confere. Possibilitam ao cristão ter a intuição profunda do significado das verdades reveladas por Deus assim como de cada criatura. Proporcionam também tomadas de atitude que nem a razão natural nem as virtudes humanas, sujeitas sempre a hesitações e falhas, conseguiriam indicar ou efetivar.



Para ilustrar o que são os dons, pode-se recorrer à imagem de um barco que navega: se é movido a remos, avança lenta e penosamente, com grande esforço para os remadores. Caso, porém, estes desdobram as velas do barco para que capte o sopro dos ventos favoráveis, os remadores descansam e o barco progride em estilo novo segundo velocidade “sobre-humana”. – Ora o barco movido ao sopro do vento que bate contra as velas, é imagem do cristão impelido pelo Espírito, segundo medidas divinas, para a meta da sua santificação.



Os dons do Espírito Santo são sete, segundo a habitual recensão dos teólogos: sabedoria, entendimento, ciência, conselho, fortaleza, pie­dade, temor de Deus. Para se beneficiar da ação do Espírito Santo, o cristão deve dispor-se de duas maneiras principais: a) cultivando o amor, pois é o amor que propicia afinidade com Deus e, por conseguinte, torna o cristão apto a ser movido pelo Espírito de Deus; b) procurando jamais dizer um Não consciente e voluntário às inspirações do Espírito. Quem se acostuma a viver assim, cresce mais velozmente na sua estatura definitiva e se configura mais fielmente ao Cristo Jesus.



* * *

Em nossos dias a renovação da oração e da espiritualidade cristãs apela freqüentemente para a ação do Espírito Santo nos corações. Muitos fiéis se tornam conscientes de que “ninguém pode dizer “Jesus Cristo é o Senhor” senão sob a moção do Espírito Santo” (cf. 1Cor 12, 3), sabem cada vez mais que “todos os que são movidos pelo Espírito de Deus, são filhos de Deus” (cf. Rm 8, 14). A consciência destas verdades vem despertando cada vez mais a atenção para a teologia espiritual. É, pois, oportuno procurarmos conhecer melhor as maneiras como o Espírito Santo age nos corações, descrevendo os seus dons e o significado destes na vida dos filhos de Deus.

1. Que são os dons do Espírito Santo?

1. Do inicio, é preciso propor a distinção que a Teologia costuma fazer entre dons e carismas(embora a palavra charisma em grego sig­nifica dom).

Por carismas entendem-se graças especiais pelas quais o Espíri­to Santo torna os cristãos aptos a tarefas e funções que contribuem para o bem ou o serviço da comunidade: assim seriam o dom de profecia, o das curas, o das línguas, o da interpretação das línguas… Os carismas têm por vezes (não sempre) índole extraordinária, como no caso de certas curas ou da glossolalia.

Por dons compreendem-se faculdades outorgadas ao cristão para seguir mais seguramente os impulsos do Espírito no caminho da perfeição espiritual. Os dons e seus efeitos são discretos, não chamando a atenção do público por façanhas portentosas.

2. Para entender melhor o que sejam os dons do Espírito, recorra­mos a uma analogia:

Quando uma criança nasce para a vida presente, é dotada por Deus de tudo que é necessário à sua existência humana: recebe, sim, um or­ganismo completo e uma alma portadora de faculdades típicas do ser humano. Como se compreende, esse conjunto ainda não esta plena­mente desenvolvido quando o bebê vem ao mundo, mas é certo que a criança possui tudo que constitui a pessoa humana.

Ora algo de análogo se dá na vida espiritual. Diz-nos Jesus que renascemos da água e do Espírito Santo pelo batismo (cf. Jo 3, 5). Este renascer importa receber uma vida nova, a vida dos filhos de Deus, trazida pela graça santificante. Essa vida nova tem suas faculdades próprias, que são:

1) as virtudes infusas

a) teologais (fé, esperança, caridade): virtudes que nos põem em contato imediato com Deus;

b) morais (prudência, justiça, temperança, fortaleza): virtudes que orientam o comportamento do cristão frente aos valores deste mundo;

2) os dons do Espírito Santo, “receptáculos” próprios para captar as moções do Espírito Santo.

Importa salientar bem a diferença entre as virtudes infusas e os dons do Espírito Santo.

As virtudes infusas são ditas infusas porque não adquiridas pelo homem. São princípios de reta outorgados ao cristão juntamente com a graça santificante, para que se comporte não apenas como ser racional, mas como filho da Deus, elevado a ordem sobrenatural1. Os critérios de conduta do cristão são as grandes verdades da fé ou da ordem sobrenatural (que nem sempre coincidem com os da razão); por isto é que, ao renascer como filho de Deus, todo homem recebe os respectivos princípios de conduta nova, que são as virtudes infusas. Destas, três se orientam diretamente para Deus (a fé, a esperança e a caridade) e quatro se orientam para o reto uso dos bens deste mundo (prudência, justiça, temperança, fortaleza). Quando o cristão age mediante as virtu­des infusas, é ele mesmo quem age segundo moldes humanos, limitados, lutando contra os obstáculos que geralmente a prática do bem encontra; de maneira lenta e trabalhosa o cristão cresce na fé, na caridade, na temperança, na fortaleza…, estando sempre sujeito a contradizer-se ou a cometer um ato incoerente com tais virtudes.

É sobre este fundo de cena que se devem entender os dons do Espírito Santo. Estes podem ser comparados a faculdades novas ou “antenas” que nos permitem apreender moções do Espírito Santo em virtude das quais agimos segundo um estilo novo, certeiro, firme, sem hesitação alguma e com toda a clarividência. Esta afirmação pode-se tornar mais clara mediante algumas comparações:

a) Imaginemos um barco que navega a remos… Adianta-se lenta­mente e com grande esforço e fadiga por parte dos remadores. Caso, porém, este barco tenha velas dobradas, admitamos que os remadores resolvam desdobrá-las, a fim de captar o vento que lhes é favorável. Em conseqüência, os marujos deixarão de remar, e o mesmo barco será movido a velocidade “sobre-humana”, de maneira nova a muito mais ve­loz do que quando movido a remos.

Ora o “mover-se a remos” corresponde ao esforço humano (sempre prevenido pela graça) para progredir na prática do bem mediante as virtudes infusas. O “deixar-se mover pelo vento que bate nas velas des­dobradas”, corresponde ao progresso provocado pela ação direta do Espírito Santo, que move os seus dons (= velas) em nós; progredimos então muito mais rapidamente segundo um estilo novo.

b) Eis outra comparação: admitamos um pintor genial que se dispõe a realizar uma obra-mestra. Para iniciar, ele confia aos discípulos mais adiantados o trabalho de preparar a tela, combinar as cores e esquematizar o quadro. Quando tudo está preparado e começa a parte mais importante da obra, o próprio mestre traça as linhas finíssimas de sua obra, revelando o seu gênio e cristalizando a sua inspiração. – De maneira análoga, o Espírito traça no íntimo de cada cristão a imagem do Cristo Jesus. Os inícios desta tarefa, Ele os realiza mediante a nossa colaboração, permitindo-nos agir segundo os nossos moldes humanos (ou mediante as virtudes infusas). Quando, porém, se trata dos traços mais típicos do Cristo na alma humana, o próprio Espírito assume a tare­fa da os delinear utilizando instrumentos especialmente finos a preciosos, que são seis dons.

Exemplificando, diremos: o homem prudente que, para a orientação de seus atos, só dispusesse de suas qualidades naturais e da virtude infusa da prudência, acertaria realmente, mas com grande lentidão, depois de várias tentativas. A prudência humana é insegura e tímida, mesmo quando acerta. – Ao contrário, quem age sob o influxo do dom do conselho, que corresponde à virtude da prudência, descobre de maneira rápida, certeira e firme o que deve fazer em cada caso.

Eis outro exemplo: quando o cristão se eleva, pela luz da fé, ao conhecimento de Deus, ele o faz de maneira imperfeita e laboriosa, re­correndo a imagens que são, ao mesmo tempo, claras e obscuras. – Dado, porém, que o cristão seja movido pelo Espírito mediante os dons de sabedoria e inteligência, ele contempla Deus e seu plano salvífico numa lúcida concatenação de idéias em poucos instantes e com grande sabor espiritual (em vez dos esforços exigidos pela virtude da fé).

As normas das virtudes são diferentes das normas dos dons. Quem age sob o influxo das virtudes, segue a norma do homem iluminado pela luz de Deus. Mas quem age sob o influxo dos dons do Espírito, segue a norma do próprio Deus participada ao homem.

3. Note-se que os dons do Espírito não são privilégio dos santos. Todos os cristãos os recebem no Batismo. Nem são necessários apenas às grandes obras, mas tornam-se indispensáveis à santificação do cristão mesmo na vida cotidiana.

O cristão pode permitir cada vez mais a ação do Espírito Santo em sua vida mediante os dons, caso se dedique especialmente ao cultivo das virtudes (principalmente da caridade) e se torne mais e mais dócil às inspirações do Espírito Santo. A prática do amor é importante, pois é o amor que nos comunica particular afinidade com Deus, adaptando-nos ao modo de agir do próprio Deus.

Procuramos agora penetrar no sentido próprio de cada um dos dons do Espírito.

2. Os dons em particular

A Tradição cristã costuma enunciar sete dons do Espírito, baseando-se no texto de Is 11,1-3 traduzido para o grego na versão dos LXX:

” 1 Brotará uma vara do tronco de Jessé

E um rebento germinará das suas raízes.

2E repousará sobre ele o espírito do Senhor:

Espírito de sabedoria e entendimento,

Conselho e fortaleza,

Ciência e temor de Deus,

3Piedade…”



O texto original hebraico, em lugar de piedade, dá a ler; “Sua inspi­ração estará no temor doSenhor“. Enumerando seis ou sete dons do Espírito, o texto bíblico não tenciona esgotar a realidade dos mesmos: estes são tantos quantos se fazem necessários para que o Espírito leve o cristão à perfeição definitiva. Os sete dons enumerados pelo texto dos LXX e pela Tradição vêm a ser, sem dúvida, os principais. Distingamo-los de acordo com a faculdade humana em que cada qual se situa:

Intelecto: ciência, entendimento, sabedoria, conselho.

Vontade: piedade.

Apetite irascível: fortaleza.

Apetite de cobiça: temor de Deus.

Passemos agora à análise de cada qual de per si.

2.1. Ciência

A ciência humana perscruta o universo e seus fenômenos, procu­rando as causas imediatas destes e concatenando-as entre si para ter uma explicação mais ou menos clara da realidade.

Ora o dom da ciência, embora não defina a natureza e as proprie­dades físicas ou químicas de cada criatura, faz que o cristão penetre na realidade deste mundo sob a luz de Deus, vê cada criatura como reflexo da sabedoria do Criador e como aceno ao Supremo Bem.

Mais: o dom da ciência leva o homem a compreender, de um lado, o vestígio de Deus que háem cada ser criado, e, de outro lado, a exigüidade ou insuficiência de cada qual.

Vestígio de Deus… São Francisco de Assis soube ouvir e procla­mar o canto das criaturas ao Senhor. As flores, as aves, a água, o fogo, o sol… tudo lhe era ocasião de contemplar e amar a Deus.

Exigüidade… Toda criatura, por mais bela que seja, é sempre limi­tada e insuficiente para o coração humano. Este foi feito para o Bem infinito e só neste pode repousar. Percebendo isto após uma vida leviana, muitos homens e mulheres se converterem radicalmente a Deus. Tal foi o caso de S. Francisco Borja (+ 1572), que ao contemplar o cadáver da rainha Isabel, exclamou: “Não voltarei a servir a um senhor que possa morrer!” Tal foi outrossim o caso de S. Silvestre (+ 1267)… Estes cometeram a “loucura” de tudo deixar a fim de possuir mais plenamente uma só coisa: o Reino de Deus ou a presença do próprio Deus.

O dom da ciência ensina também a reconhecer melhor o significado do sofrimento e das humilhações; estes “contra-valores”, no plano de Deus, têm o valor de escola que liberta e purifica o homem. Configuram o cristão a Jesus Cristo, concedendo-lhe um penhor de participação na glória do próprio Senhor Jesus. Se não fora o sofrimento, muitos e muitos homens não sairiam de sua estatura anã e mesquinha,… nunca atingiriam a plenitude do seu desenvolvimento espiritual.

São estes alguns dos frutos do dom da ciência.

2.2. Entendimento ou inteligência

A palavra “inteligência” é, segundo alguns, derivada de intellegere = intuslegere, ler dentro, penetrar a fundo.

Na ordem natural, entendemos (intelligimus) quando captamos o âmago de alguma realidade. Na linha da fé, paralelamente entender é penetrar, ler no íntimo das verdades reveladas por Deus, é ter a intuição do seu significado profundo. Pelo dom do entendimento, o cristão contempla com mais lucidez o mistério da SS. Trindade, o amor do Redentor para com os homens, o significado da S. Eucaristia na vida cristã….

A penetração outorgada pelo dom da inteligência (ou do entendi­mento) difere daquela que o teólogo obtém mediante o estudo; esta é relativamente penosa e lenta; além do que, pode ser alcançada por quem tenha acume intelectual, mesmo que não possua grande amor. Ao contrário, o dom da inteligência é eficaz mesmo sem estudo; é dado aos pequeninos e ignorantes, desde que tenham grande amor a Deus.

Para ilustrá-lo, conta-se que um irmão leigo franciscano disse certa vez a S. Boaventura (+ 1274), o Doutor Seráfico: “Felizes vós, homens doutos, que podeis amar a Deus muito mais do que nós, os ignorantes!” Respondeu-lhe Boaventura: “ Não é a doutrina alcançada nos livros que mede o amor, uma pobre velha ignorante pode amar a Deus mais do que um grande teólogo, se estiver unida a Deus”. O irmão compreendeu a lição e saiu gritando pelas ruas: “Velhinha ignorante, você pode amar a Deus mais do que o mestre Frei Boaventura!”

O irmão dizia a verdade. Na ordem natural, é compreensível que o amor brote do conhecimento. Na ordem sobrenatural, porém, pode acontecer o inverso: é o amor que abre os olhos do conhecimento. Os que mais amam a Deus, são os que mais profundamente dissertam sobre Ele.

Como frutos do dom do entendimento, podemos enunciar as intuições das verdades da fé que são concedidas a muitos cristãos durante o seu retiro espiritual ou no decurso de uma leitura inspirada pelo amor a Deus. O “renascer da água e do Espírito”, a imagem da videira e dos ramos, o “seguir a Cristo” tomam então clareza nova, apta a transfor­mar a vida do cristão.

O dom do entendimento manifesta também o horror do pecado e a vastidão da miséria humana. Por mais paradoxal que pareça, é preciso observar que os santos, quanto mais se aproximaram de Deus (ou quanto mais foram santos), tanto mais tiveram consciência do seu pecado ou da sua distância daquele que é três vezes santo.

Em suma, o dom do entendimento faz ver melhor a santidade de Deus, a infinidade do seu amor, o significado dos seus apelos e também… a pobreza, não raro mesquinha, da criatura que se compraz em si mesma, em vez de aderir corajosamente ao Criador.

2.3. O dom da sabedoria



Na ordem natural do conhecimento, a inteligência humana não se contenta com noções isoladas, mas procura reunir suas concepções numa síntese sistemática, de modo a concatená-las numa visão harmoniosa. A mente humana procura atingir os primeiros princípios e as causas supremas de toda a realidade que ela conhece.

Ora a mesma sistematização harmoniosa ocorre também na ordem sobrenatural. O dom da ciência e o entendimento já proporcionam uma penetração profunda no significado de cada criatura e de cada verdade revelada respectivamente; oferecem também uma certa síntese dos objetos contemplados, relacionando-os com o Supremo Senhor, que é Deus. Todavia o dom que, por excelência, efetua essa síntese harmoniosa e unitária, é o da sabedoria. Esta abrange todos os conhecimentos do cristão e os põe diretamente sob a luz de Deus, mostrando a grandeza do plano do Criador e a insondabilidade da vida daquele que é o Alfa e o Ômega de toda a criação.

Mais: o dom da sabedoria não realiza a síntese dos conhecimentos da fé em termos meramente intelectuais. Ele oferece um conhecimento sápido ou saboroso da verdade1 …Saboroso ou deleitoso, porque se deriva da experiência do próprio Deus feita pelo cristão ou da afinidade que o cristão adquire com o Senhor pelo fato de mais a mais amar a Deus. Uma comparação ajudará a compreender tal proposição: para conhecer o sabor de uma laranja, posso consultar, intelectual e cientificamente, os tratados de Botânica; terei assim uma noção aproximada do que seja esse sabor. Mas a melhor via para conseguir o objetivo será, sem dúvida, a experiência da própria laranja que se faz pelo paladar. Os resultados do estudo meramente intelectual são frios e abstratos, ao passo que as vantagens da experiência são concretas e saborosas.

Ora, na verdade, os dons da ciência e do entendimento fazem-nos conhecer principalmente por via de amor ou de afinidade com Deus. Todavia é o dom da sabedoria que, por excelência, resulta dessa conaturalidade ou familiaridade com o Senhor. Ele se exerce na proporção da íntima união que o cristão tenha com o Senhor Deus. “O dom da sabedoria faz-nos ver com os olhos do Bem-amado”, dizia um grande místico; a partir da excelsa atalaia que é o próprio Deus, contemplamos todas as coisas quando usamos o dom da sabedoria.

Estas verdades dão a ver quanto nesta vida importa o amor de Deus. É este que propicia o conhecimento mais perspicaz e saboroso do mesmo Deus (o que não quer dizer que se possa menosprezar o estudo, pois, se o Criador nos deu a inteligência, foi para que a apliquemos à verdade por excelência, que é Deus). Aliás, observam muito a propósito os teólogos: veremos a Deus face-a-face por toda a eternidade na proporção do amor com que o tivermos amado nesta vida. O grau do nosso amor, na hora da morte, será o grau da nossa visão de Deus na vida eterna ou por todo o sempre. É por isto que se diz que o amor é o vínculo ou o remate da perfeição (cf. Cl 3, 14). “No ocaso de sua vida, cada um de nós será julgado na base do amor”, diz S. João da Cruz.

2.4. Conselho



Afirmam os teólogos que Deus não deixa faltar às suas criaturas o que lhes é necessário, nem é propenso a dons supérfluos, pois Deus tudo faz com número, peso e medida (cf. Sb 11, 20). Em tudo resplandece a sua sabedoria. Por isto é que Deus é providente, ou seja, Ele providencia os meios para que cada criatura chegue retamente ao seu fim devido.

Ora acontece que, para realizarmos determinada atividade, exercemos um processo mental que tem por objetivo examinar cuidadosamente não só a conveniência dessa atividade, mas também todas as circunstâncias em que ela se deve desenrolar. Muitas vezes esse processo se efetua sem que dele tomemos plena consciência. Quanto, porém, nos vemos diante de uma tarefa rara ou mais exigente do que as de rotina, o processo deliberativo é mais intenso e, por isto, se torna mais consciente; a mente se esforça por ver claro e fazer a opção mais adequada, sem que, porém, o consiga de imediato. Não raro é necessário recorrer ao conselho de outra pessoa mais experimentada.

É por efeito da virtude (natural e infusa) da prudência que cada cristão delibera sobre o que deve e não deve fazer. É a prudência que avalia os meios em vista do respectivo fim.

Pois bem. Em correspondência à virtude da prudência, existe um dom do Espírito Santo, chamado “dom do conselho”. Este permite ao cristão tomar as decisões oportunas sem a fadiga e a insegurança que muitas vezes caracterizam as deliberações da virtude da prudência. Esta por si não basta para que o cristão se comporte à altura da sua vocação de filho de Deus,… vocação que exige simultaneamente grande cautela ou circunspecção e extrema audácia ou coragem. Nem sempre a virtude humana entrevê nitidamente o modo de proceder entre polos antitéticos. A criatura, limitada como é, nem sempre consegue conhecer adequadamente o momento presente, menos ainda é apta a prever o futuro e – ainda – sente dificuldade em aplicar os conhecimentos do passado à compreensão do presente e ao planejamento do futuro. É preciso, pois, que o Espírito Santo, em seu divino estilo, lhe inspire a reta maneira de agir no momento oportuno e exatamente nos termos devidos.

Assim o dom do conselho aparece como um regente de orquestra que coordena divinamente todas as faculdades do cristão e as incita a uma atividade harmoniosa e equilibrada. Imagine-se com que circunspecção (cautela e audácia) um maestro rege os múltiplos instrumentos de sua orquestra: assinala a cada qual o momento preciso em que deve entrar e os matizes que deve dar à sua melodia. Assim faz o Espírito mediante o dom do conselho em cada cristão.

Diz a Escritura que há um tempo exato para cada atividade1;

fora desse momento preciso, o que é oportuno pode tornar-se inoportuno.

Ora nem sempre é fácil discernir se é oportuno falar ou calar, ficar ou partir, dizer Sim ou dizerNão. Nem as pessoas prudentes, após muito refletir, conseguem definir com segurança o que convém fazer. Ora é precisamente para superar tal dificuldade que o Espírito move o cristão mediante o dom do conselho.

2.5. Piedade



Todo homem é chamado a viver em sociedade, relacionando-se com Deus e com os seus semelhantes. Requer-se que esse relacionamento seja reto ou justo. Por isto a virtude da justiça rege as relações de cada ser humano, assumindo diversos nomes de acordo com o tipo de relacionamento que ela deve orientar: é justiça propriamente dita, sempre que nos relacionamos com aqueles a quem temos uma dívida rigorosa; a justiça se torna religião desde que nos voltemos para Deus; é piedade, se nos relacionamos com nossos pais, nossa família ou nossa pátria; é gratidão, em relação aos benfeitores.

Ora há um dom do Espírito que orienta divinamente todas as relações que temos com Deus e com o próximo, tornando-as mais profundas e perfeitas: é precisamente o dom da piedade. São Paulo implicitamente alude a este dom quando escreve: “Recebestes o espírito de adoção filial, pelo qual bradamos: “Abá, ó Pai” (Rm 8, 15). O Espírito Santo, mediante o dom da piedade, nos faz, como filhos adotivos, reconhecer Deus como Pai.

E, pelo fato de reconhecermos Deus como Pai, consideramos as criaturas com olhar novo, inspirado pelo mesmo dom da piedade.

Examinemos de mais perto os efeitos do dom da piedade.

Frente a Deus ele nos leva a superar as relações de “dar e receber” que caracterizam a religiosidade natural; leva a não considerar tanto os benefícios recebidos da parte de Deus, mas, muito mais, o fato de que Deus é sumamente santo e sábio: “Nós vos damos graças por vossa grande glória”, diz a Igreja no hino da Liturgia eucarística; é, sim, próprio de um filho olhar a honra e a glória de seu pai, sem levar em conta os benefícios que ele possa receber do mesmo. É o dom da piedade que leva os santos a desejar, acima de tudo, a honra e a glória de Deus “… para que em tudo seja Deus glorificado”, diz São Bento, ao passo que S. Inácio de Loiola exclama: “… para a maior glória de Deus”. É também o dom da piedade que desperta no cristão viva e inabalável confiança em Deus Pai,… confiança e entrega das quais dá testemunho S. Teresinha de Lisieux na sua doutrina sobre a infância espiritual.

O dom de piedade não incita os cristãos apenas a cumprir seus deveres para com Deus de maneira filial, mas leva-os também a experimentar interesse fraterno para com todos os seus semelhantes. Típico exemplo deste sentimento encontra-se na vida de S. Francisco de Assis: quando este, certo dia, sonhando com as glórias de um cavaleiro medieval, avistou um leproso, sentiu-se impelido a superar qualquer repugnância e a dar-lhe o ósculo que exprimia a fraternidade de todos os homens entre si.

O dom de piedade, tornando o cristão consciente de sua inserção na família dos filhos de Deus, move-o a ultrapassar as categorias do direito e do dever, a fim de testemunhar uma generosidade que não regateia nem mede esforços desde que sirva aos irmãos. É o que manifesta o Apóstolo ao escrever: “Quanto a mim, de bom grado me despenderei, e me despenderei todo inteiro, em vosso favor” (2Cor 12, 15).

2.6. Fortaleza



A fidelidade à vocação cristã depara-se com obstáculos numerosos, alguns provenientes de fora do cristão; outros, ao contrário, do seu íntimo ou das suas paixões. Por isto diz o Senhor que “o Reino dos céus sofre violência dos que querem entrar, e violentos se apoderam dele” (Mt 11, 12).

Ora, em vista da necessidade de coragem e magnanimidade que incumbe ao cristão, o Espírito lhe dá o dom da fortaleza. Esta nem sempre consiste em realizar vultosas e admiradas pelo público, mas não raro implica paciência, perseverança, tenacidade, magnanimidade silenciosas… Pelo dom da fortaleza, o Espírito impele o cristão não apenas àquilo que as forças humanas podem alcançar, mas também àquilo que a força de Deus atinge. É essa força de Deus que pode transformar os obstáculos em meios; é ela que assegura tranqüilidade e paz mesmo nas horas mais tormentosas. Foi ela que inspirou a S. Francisco de Assis palavras tão significativas quanto estas: “Irmão Leão, a perfeita alegria consiste em padecer por Cristo, que tanto quis padecer por nós”.

2.7. Temor de Deus



Para entender o significado desde dom, distingamos diversos tipos de temor: a) o temor covarde ou da covardia; b) o temor servil ou do castigo; c) o temor filial. Este consiste na repugnância que o cristão experimenta diante da perspectiva de poder-se afastar de Deus; brota das próprias entranhas do amor. Não se concebe o amor sem este tipo de temor.

Com outras palavras: as virtudes afastam, sim, o cristão do pecado, ajudando-o a vencer as tentações. Isto, porém, acontece através de lutas, hesitações e, não raro, deficiências. Ora pelo dom do temor de Deus a vitória é rápida e perfeita, pois então é o Espírito que move o cristão a dizer Não à tentação.

O dom do temor de Deus se prende inseparavelmente à virtude da humildade. Esta nos faz conhecer nossa miséria; impede a presunção e a vã glória, e assim nos torna conscientes de que podemos ofender a Deus; daí surge o santo temor de Deus. O mesmo dom também se liga à virtude da temperança; esta modera a concupiscência e os impulsos desordenados do coração; com ela converge o temor de Deus, que, por impulso de ordem superior, modera os apetites que poderiam ofender a Deus.

Os santos deram provas sensíveis de santo temos de Deus. Tenha-se em vista S. Luís de Gonzaga, que, conforme se narra, derramou copiosas lágrimas certa vez quando teve que confessar suas faltas,… faltas que, na verdade, dificilmente poderiam ser tidas como pecados. Para o santo, essas pequeninas faltas eram sinais do perigo de poder um dia afastar-se de Deus. Ora, para quem ama, qualquer perigo deste tipo tem importância.

Eis, em grandes linhas, o significado dos dons do Espírito Santo na vida cristã. São elementos valiosos para o progresso interior, elementos que o Espírito mais e mais utiliza, se o cristão procura amar realmente a Deus e ao próximo e jamais dizer um Não consciente às inspirações da graça.

Revista “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”
D. Estevão Bettencourt, osb
Revista nº. 479, Ano 2002, Pág. 163.

1 Sobrenatural não quer dizer portentoso ou maravilhoso, mas designa o que ultrapassa as exigências de qualquer natureza criada,… o que é dado gratuitamente por Deus. É sobrenatural, portanto, a elevação do homem à filiação divina ou à comunhão de vida com o próprio Deus a fim de chegar à visão de Deus face-a-face.



1 A palavra sabedoria vem do saber, derivado do verbo latino sapere, que significa “ter gosto de…” – O vocábulo português sabor se origina do latino sapor, que é da mesma raiz que sapere”.



1 Eis o texto de Ecl 3, 1-8:

“Todas as coisas têm o seu tempo, e tudo o que existe debaixo dos céus tem a sua hora.

Há tempo para nascer, e tempo para morrer.

Tempo para plantar, e tempo para arrancar o que se plantou.

Tempo para matar, e tempo para dar vida.

Tempo para destruir, e tempo para edificar.

Tempo para chorar, e tempo para rir.

Tempo para se afligir, e tempo para dançar.

Tempo para espalhar pedras, e tempo para as ajuntar.

Tempo para dar abraços, e tempo para se afastar deles.

Tempo para adquirir, e tempo para perder.

Tempo para guardar, e tempo para atirar fora.

Tempo para rasgar, e tempo para coser.

Tempo para calar, e tempo para falar.

Tempo para amar, e tempo para odiar.

Tempo para a guerra. e tempo para a paz”.




23º DOMINGO DO TEMPO COMUM






Salmo 118, 137.124


ANTÍFONA DE ENTRADA: Vós sois justo, Senhor, e são rectos os vossos julgamentos. Tratai o vosso servo segundo a vossa bondade.




Introdução ao espírito da Celebração






Vivemos num mundo em contínua renovação, com invenções e descobertas que não podíamos imaginar há pouco tempo ainda.


Para os optimistas, é um tempo de grandes realizações, e descobertas, em que se abrem ao homem imensas possibilidades; para os pessimistas, o nosso tempo é um tempo de sobreaquecimento do planeta, de subida do nível do mar, de destruição da camada do ozono, de eliminação das florestas, de risco de holocausto nuclear…


Quer queiramos, quer não, Para todos nós é um tempo de desafios, de interpelações, de procura, de risco…


Como é que nós encaramos este mundo em transformação? Vemo-lo com os olhos da esperança, ou com os óculos negros do desespero?




ACTO PENITENCIAL






Perante as novidades que a civilização nos apresenta, facilmente nos deixamos subjugar pelo que não tem valor, como a criança que prefere um brinquedo a uma verdadeira riqueza, sacrificando os valores eternos.


Manifestemos ao Senhor o nosso arrependimento e peçamos-Lhe a graça da conversão pessoal.






(Tempo de silêncio. Apresentamos, como alternativa, elementos para o esquema C)






• Senhor Jesus: corremos atrás do que dá prazer aos sentidos,


e abandonamos os tesouros que nos ofereceis a cada instante.


Senhor, tende piedade de nós!






Senhor, tende piedade de nós!






• Cristo: Olhamos a vida sem a luz da fé e com pessimismo,


e somos enganados pela tentação de uma vida sem valores.


Cristo, tende piedade de nós!






Cristo, tende piedade de nós!






• Senhor Jesus: cedemos à tentação da preguiça e alienação,


na oração, nos sacramentos, no trabalho e no apostolado.


Senhor, tende piedade de nós!






Senhor, tende piedade de nós!






Deus todo poderoso tenha compaixão de nós,


perdoe os nossos pecados e nos conduza à vida eterna.










ORAÇÃO COLECTA: Senhor nosso Deus, que nos enviastes o Salvador e nos fizestes vossos filhos adoptivos, atendei com paternal bondade às nossas súplicas e concedei que, pela nossa fé em Cristo, alcancemos a verdadeira liberdade e a herança eterna. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.








LITURGIA DA PALAVRA




Primeira Leitura






Monição: Isaías, companheiro dos judeus exilados em Babilónia, garante-lhes, quando estão afogados na dor e no desespero, que Deus está prestes a vir ao seu encontro para os libertar e conduzir à sua terra.


Nas imagens dos cegos que voltam a contemplar a luz, dos surdos que voltam a ouvir, dos coxos que saltarão como veados e dos mudos a cantar com alegria, o profeta representa essa vida nova, cheia de felicidade, abundante, transformadora, que o Senhor vai oferecer a Judá.






Isaías 35, 4-7a


4Dizei aos corações perturbados: «Tende coragem, não temais. Aí está o vosso Deus; vem para fazer justiça e dar a recompensa; Ele próprio vem salvar-nos». 5Então se abrirão os olhos dos cegos e se desimpedirão os ouvidos dos surdos. 6Então o coxo saltará como um veado e a língua do mudo cantará de alegria. As águas brotarão no deserto e as torrentes na aridez da planície; 7aa terra seca transformar-se-á em lago e a terra árida em nascentes de água.






Este pequeno trecho é tirado do chamado «Pequeno Apocalipse de Isaías» (Is 34, 1 – 35, 10), redigido em forma de um díptico: em contraste com a ruína de Edom (um símbolo das nações), descreve-se a utopia messiânica da Jerusalém restaurada, em que todas as doenças serão curadas Os vv. 5-6 são citados implicitamente em Mt 11, 5 e Lc 7, 22; no Evangelho de hoje (Mc 7, 37) também se pode ver uma alusão a esta passagem (v. 5): «e se desimpedirão os ouvidos dos surdos».




Salmo Responsorial


Sl 145 (146), 7.8-9a.9bc-10 (R. 1)






Monição: O salmista exorta-nos a louvar o Senhor e a confiar nele e não nos homens, porque Ele reina eternamente.


Com os mesmos sentimentos, façamos deste texto inspirado a nossa oração cheia de confiança.






Refrão: Ó MINHA ALMA, LOUVA O SENHOR.






Ou: ALELUIA.






O Senhor faz justiça aos oprimidos,


dá pão aos que têm fome


e a liberdade aos cativos.






O Senhor ilumina os olhos dos cegos,


o Senhor levanta os abatidos,


o Senhor ama os justos.






O Senhor protege os peregrinos,


ampara o órfão e a viúva


e entrava o caminho aos pecadores.






O Senhor reina eternamente;


o teu Deus, ó Sião,


é rei por todas as gerações.




Segunda Leitura






Monição: S. Tiago Menor, na sua carta aos cristãos, exorta-os a que se comprometam com Jesus, seguindo-O no caminho do amor, da partilha, da doação.


Ensina todos os fiéis a não discriminar nem marginalizar qualquer pessoa, e a acolher com especial bondade os pequenos e os pobres.






Tiago 2, 1-5


Meus irmãos: 1A fé em Nosso Senhor Jesus Cristo não deve admitir acepção de pessoas. 2Pode acontecer que na vossa assembleia entre um homem bem vestido e com anéis de ouro e entre também um pobre e mal vestido; 3talvez olheis para o homem bem vestido e lhe digais: «Tu, senta-te aqui em bom lugar», e ao pobre: «Tu, fica aí de pé», ou então: «Senta-te aí, abaixo do estrado dos meus pés». 4Não estareis a estabelecer distinções entre vós e a tornar-vos juízes com maus critérios? 5Escutai, meus caríssimos irmãos: Não escolheu Deus os pobres deste mundo para serem ricos na fé e herdeiros do reino que Ele prometeu àqueles que O amam?






Na secção de que é extraída a leitura (vv. 1-13), S. Tiago, de modo incisivo e com exemplos concretos (vv. 2-4), mostra a incompatibilidade entre a fé cristã e as discriminações e o favoritismo (cf. Mt 22, 16; 23, 8-11; Mc 10, 44-45; Jo 17, 20-21; Act 10, 34; Rm 2, 11; Gal 2, 6; 3,28; Ef 4, 3-5; 1 Pe 1, 17); a verdade é que também não pretende reprovar alguma distinção que se possa conferir a algum fiel, em razão da sua autoridade, idade, necessidade, ministério hierárquico, etc.; o que condena são as distinções ditadas por critérios mundanos (vaidade, subserviência, parcialidade, etc.); note-se que também são de reprovar os exageros ao atender legítimas distinções, pois há uma igualdade radical de todos os fiéis que a prática diária não pode desfigurar sem atraiçoar a lei do Reino, ou a régia lei como outros traduzem (no sentido de suprema), da caridade cristã.


1 «Não ligueis a fé em N.S.J.C. glorioso…»: há quem traduza: fé na glória do Senhor N. J. C., ou também fé no Senhor da glória (cf. 1 Cor 2, 8; Jo 12, 41; 17, 5; Is 42, 8; Ex 24, 16); assim teríamos uma afirmação da divindade de Jesus, mas parece preferível a tradução mais óbvia e corrente, referida à condição de Jesus glorificado, que adoptámos na tradução da Bíblia da Difusora Bíblica: «Não tenteis conciliar a fé em Nosso Senhor Jesus Cristo glorioso com a acepção de pessoas».


2-5. «Pode acontecer que…» Uma forma delicada de prevenir abusos, que se davam entre os judeus, a que poderiam estar sujeitos cristãos com pouca formação; de qualquer modo, Tiago é claro e enérgico. Se condena «estabelecer distinções», não pretende reprovar alguma distinção, como acima se disse.




Aclamação ao Evangelho


Mt 4, 23






Monição: Enche-nos de alegria a certeza da fé de que Jesus vai connosco a caminho do Céu e nunca nos abandona no meio das dificuldades.


Ela dá solução a todos os problemas humanos, de modo que, n’Ele e com Ele, vamos com segurança ao encontro do Pai.


Aclamemos o Evangelho da Salvação que proclama para nós esta consoladora esperança.




ALELUIA






Jesus pregava o Evangelho do reino


e curava todas as enfermidades entre o povo.








Evangelho






São Marcos 7, 31-37


Naquele tempo, 31Jesus deixou de novo a região de Tiro e, passando por Sidónia, veio para o mar da Galileia, atravessando o território da Decápole. 32Trouxeram-Lhe então um surdo que mal podia falar e suplicaram-Lhe que impusesse as mãos sobre ele. 33Jesus, afastando-Se com ele da multidão, meteu-lhe os dedos nos ouvidos e com saliva tocou-lhe a língua. 34Depois, erguendo os olhos ao Céu, suspirou e disse-lhe: «Effathá», que quer dizer «Abre-te». 35Imediatamente se abriram os ouvidos do homem, soltou-se-lhe a prisão da língua e começou a falar correctamente. 36Jesus recomendou que não contassem nada a ninguém. Mas, quanto mais lho recomendava, tanto mais intensamente eles o apregoavam. 37Cheios de assombro, diziam: «Tudo o que faz é admirável: faz que os surdos oiçam e que os mudos falem».






Só Marcos refere em pormenor esta cura. Jesus não se limita a um gesto corrente de impor as mãos, mas «meteu-lhe os dedos nos ouvidos e com saliva tocou-lhe a língua» (v. 33), o que não envolve qualquer espécie magia, mas é um gesto simbólico, como que sacramental, apto para excitar a fé e confiança do doente e pôr em evidência como a graça divina da cura passa através de sinais sensíveis. Mas o milagre não aparece como fruto dos gestos de Jesus, mas devido à eficácia da sua palavra; nisto se distingue das benzeduras dos curandeiros judeus e dos passes mágicos helenísticos.


34 «Effathá»: a força poderosa da palavra de Jesus é de tal modo impressionante que se manteve na tradição a própria expressão aramaica, mesmo depois de o Evangelho ter passado a ser pregado em grego. S. Marcos, escrevendo para não judeus, tem o cuidado de fornecer a sua tradução: «abre-te!» A ordem não é dada por Jesus aos membros afectados pela doença, mas à pessoa do doente, o que reforça o seu simbolismo; neste sentido, a mesma palavra passou ao rito do Baptismo, mantendo-se ainda no Baptismo dos adultos; no das crianças temos agora apenas a oração a pedir que os ouvidos do baptizando se abram para em breve ouvir e aceitar a palavra de Deus; nesta linha está o apelo emblemático do Papa João Paulo II: «abri as portas a Cristo!»


1. Deus, nossa paz e salvação


Isaías, o primeiro dos chamados profetas maiores, acompanha a primeira leva de Judeus que vão desterrados para a Babilónia. Nesta situação humilhante e sem esperança, ameaça-os a tentação do desespero.


O Senhor envia-lhes o Seu profeta – como a cada um de nós aos homens de hoje – para os levantar desta prostração.






a) Deus nunca nos falta. «Dizei aos corações perturbados: «Tende coragem, não temais.»


Estamos habituados a que os homens falhem nas suas promessas, e transferimos esta experiência amarga para Deus. E assim, ao mínimo contratempo, entramos em dúvidas de fé e de esperança.


É verdade que, muitas vezes, Deus não nos faz a vontade, não nos acompanha nos nossos sonhos de loucura, porque tem algo infinitamente mais valioso para nos dar.


Há, de facto, no mundo uma organização do mal que tem um chefe, um mentor, na luta contra Deus e na tentativa para destruir o amor e o bem no coração dos homens, pela violência, a imoralidade e o medo. Manifesta-se com leis iníquas, grupos de malfeitores e colaboração dos homens pela cedência à degradação.


A última palavra, contudo, pertence a Deus. O Salmo II, lembrando a omnipotência e a bondade infinita do Senhor do universo, e depois de chamar projectos vãos, sem futuro aos planos de alguns para destruir a humanidade que a Igreja tenta edificar, diz: «Aquele que habita nos céus ri-se deles e escarnece (dos seus planos).»






b) N’Ele pomos a nossa esperança. «Aí está o vosso Deus; vem para fazer justiça e dar a recompensa; Ele próprio vem salvar-nos».


Sem que os israelitas se apercebessem, o Senhor preparava o seu regresso à Terra Prometida, no momento oportuno.


Regressariam, porém, já convertidos dos seus desmandos anteriores, não para a grandeza de um reino temporal, fora do qual ficariam todos os outros povos – era este o seu sonho – mas para um reino que Deus viria fundar com as fronteiras do mundo e para os povos de todas as nações e tempos, Seria um reino espiritual, de salvação, que começasse na terra a comunhão que nos espera no Céu.


Sofremos, muitas vezes, porque teimamos em querer e exigir que Deus aprove os nossos planos caducos e colabore incondicionalmente neles.


Quando as coisas nos desagradam, a primeira pergunta que havemos de fazer é: qual a mensagem que o Senhor me transmite, por meio dos acontecimentos? Em que devo mudar a minha mentalidade e a minha conduta?


Todos os acontecimentos são portadores de um apelo de Deus a que nos convertamos, porque Ele sabe que este é o nosso caminho único de felicidade.






c) Dá sempre resposta às nossas carências. «Então se abrirão os olhos dos cegos e se desimpedirão os ouvidos dos surdos. Então o coxo saltará como um veado e a língua do mudo cantará de alegria.»


Nas promessas do profeta Isaías ao povo de Deus parece intuir-se uma indicação discreta dos aspectos da vida em que precisamos urgentemente de melhorar:


– Então se abrirão os olhos dos cegos. Temos necessidade de crescer na fé…e não o conseguiremos enquanto não melhorarmos a nossa formação doutrinal, para dar resposta aos problemas fundamentais do homem. Por outro lado, quando a fé não é levada à prática da vida, quando não há coerência entre o que acreditamos e fazemos, a fé debilita-se e morre. È como se os olhos se fechassem.


– e se desimpedirão os ouvidos dos surdos. Precisamos de estar mais atentos ao que o Senhor nos diz pela Sua Igreja e viver a docilidade às Suas inspirações.


– Então o coxo saltará como um veado. Como está o nosso progresso na vida espiritual? Não é verdade que nos agarramos teimosamente a uma vida rotineira, resistindo ao que o Senhor nos inspira?


– e a língua do mudo cantará de alegria. A pouco e pouco, emudecemos nas nossas orações e outras práticas de piedade. Entramos no plano inclinado da rotina, fazendo as coisas de Deus sem alma, e acabamos no abandono cobarde das nossas promessas do Baptismo.


É tempo de regressar, para que o Senhor possa corresponder ás nossas carências. Deste modo, águas brotarão no deserto e as torrentes na aridez da planície; a terra seca transformar-se-á em lago e a terra árida em nascentes de água.


2. Jesus, rosto da bondade do Pai


Na Sua vida pública, Jesus passa distribuindo às mãos cheias os milagres. Eles manifestam o poder, a bondade e a solicitude de Deus por nós.






a) Deus vem ao nosso encontro. «Jesus deixou de novo a região de Tiro e, passando por Sidónia, veio para o mar da Galileia, atravessando o território da Decápole.»


Jesus Cristo apresenta-Se no mundo como o rosto visível do Pai. Na última Ceia responde a um dos Doze: «Filipe: Há tanto tempo que estás comigo e não me conheces? Quem me vê, vê o Pai.»


Onde verdadeiramente se realiza a profecia de Isaías é na vinda de Jesus, no mistério da Incarnação. «Ele próprio vem salvar-nos».


Ele quer estar presente e actuante na Igreja até ao fim dos tempos. Nela Se torna acessível a todos.


Os milagres que faz na vida pública são uma alusão velada aos Sacramentos:


– a ressurreição dos mortos, pelos Sacramentos do baptismo e da Reconciliação e Penitência;


– a multiplicação dos pães e dos peixes, na Eucaristia;


– à cura dos cegos, leprosos, paralíticos, etc., respondem os Sacramentos da Igreja onde encontramos remédio para os nossos males.


Ao mesmo tempo que lança à terra dos corações a semente abundante da Boa Nova, Jesus realiza com gestos proféticos a riqueza dos Sacramentos – fontes da Graça – que nos vai oferecer na Sua Igreja.






b) Nós caminhamos ao encontro de Jesus. «Trouxeram-Lhe então um surdo que mal podia falar e suplicaram-Lhe que impusesse as mãos sobre ele.»


As pessoas trazem a Jesus um surdo-mudo para que lhe restitua as condições de normalidade de vida. Ele quer deixar uma parte da Redenção para nós, associando-nos à alegria de espalhar o bem.


Muitos caminharão ao encontro de Jesus pelo seu próprio pé, inspirados pelo Espírito Santo. Mas, na economia normal da redenção, tem de ser cada um de nós a levar alguém ao encontro d’Ele, para que o cure.


É-nos pedido um pouco de esforço humano, para que tenhamos algum merecimento em nosso caminhar para Ele. Ouvir e ler a palavra de Deus, abeirar-se dos Sacramentos, participar na vida litúrgica são outros tantos modos de ir ao encontro de Jesus, para que nos conceda as Suas graças.


Não podemos, contudo, pensar apenas em nós. Temos de começar na terra a vida em comunhão que será o nosso prémio no Céu, para sempre, ajudando os outros a caminhar ao encontro do Senhor.


Fazemo-lo pelo testemunho de vida que lança interrogações nas pessoas; pela amizade sincera que se traduz numa palavra amiga que ajuda alguém a tomar norte e alento na vida.






c) Deus tudo faz bem feito. «Cheios de assombro, diziam: ‘Tudo o que faz é admirável: faz que os surdos oiçam e que os mudos falem‘.»


Somos tentados algumas vezes, perante os acontecimentos que nos ultrapassam, a pensar que as coisas não têm lógica.


É necessário ter presente que Deus sabe infinitamente mais do que nós e conhece aquilo de que precisamos. Pelos caminhos mais desconhecidos leva-nos ao encontro das Suas maravilhas.


Foi assim com a Sua Paixão, Morte e Ressurreição. O que pareceu uma derrota avassaladora na Sua missão transformou-se numa vitória retumbante e para sempre.


Celebramos todos os dias e, com especial solenidade aos Domingos, a Santa Missa, mistério de fé, para que tenhamos presente esta sabedoria infinita de Deus.


Ela é um convite permanente a que nos entreguemos ao Senhor, confiando inteiramente n’Ele.


Nossa Senhora dá-nos o exemplo deste abandono nas mãos de Deus, pela sua entrega filial, embora o que Deus lhe pede seja um mistério profundo que só no decorrer dos tempos vai desvendar.




LITURGIA EUCARÍSTICA






INTRODUÇÃO






O Senhor inundou-nos de luz com a Sua Palavra solenemente proclamada e explicada, para que possamos caminhar ao Seu encontro com toda a segurança.


Propõe-se agora preparar para nós um Alimento divino – o Seu Corpo, Sangue, Alma e Divindade – para que tenhamos forças para caminhar até ao Céu.


Avivemos a nossa fé e contemplemos, agradecidos, as maravilhas que vão acontecer sobre o altar, pelo ministério do sacerdote.






ORAÇÃO SOBRE AS OBLATAS: Senhor nosso Deus, fonte da verdadeira devoção e da paz, fazei que esta oblação Vos glorifique dignamente e que a nossa participação nos sagrados mistérios reforce os laços da nossa unidade. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.






SANTO


SAUDAÇÃO DA PAZ






Cada um de nós será feliz na terra na medida em que se libertar o seu egoísmo para caminhar ao encontro dos outros.


O Senhor pede-nos continuamente que derrubemos os juros de orgulho e ambição que nos separam uns dos outros, perdoando-nos mutuamente as ofensas recebidas.


Revestidos destes sentimentos,






Saudai-vos na paz de Cristo!






Monição da Comunhão






Os contemporâneos de Jesus testemunharam muitos milagres, mas só um grupo restrito – os Apóstolos e outras pessoas que estavam no Cenáculo – puderam comungar.


Somos os privilegiados do Amor de Deus, porque Ele nos convida a recebê-l’O na Santíssima Eucaristia.


Procuremos, em nossa pequenez e indigência, corresponder a tanto Amor com fé, humildade e devoção.






Salmo 41, 2-3


ANTÍFONA DA COMUNHÃO: Como suspira o veado pela corrente das águas, assim minha alma suspira por Vós, Senhor. A minha alma tem sede do Deus vivo.






ou


Jo 8, 12


Eu sou a luz do mundo, diz o Senhor; quem Me segue não anda nas trevas, mas terá a luz da vida.






ORAÇÃO DEPOIS DA COMUNHÃO: Senhor, que nos alimentais e fortaleceis à mesa da palavra e do pão da vida, fazei que recebamos de tal modo estes dons do vosso Filho que mereçamos participar da sua vida imortal. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.








RITOS FINAIS






Monição final






Procuremos seguir Jesus Cristo Salvador pelos caminhos da vida, e não nos afastaremos do rumo que procuramos.


Ajudemos os nossos irmãos a procurá-l’O em cada dia, na Palavra, na Oração e na Eucaristia.









CORES LITÚRGICAS NA IGREJA
Os paramentos utilizados pelo sacerdote durante a celebração da Santa Missa pretendem ilustrar o que significa "revestir-se de Cristo", falar e agir "in persona Christi".

Você já percebeu que as cores litúrgicas variam, ou seja, as cores que o padre veste nas Missas, nos Batizados ou nas Confissões mudam? E que, em algumas igrejas, as cores das cortinas dos sacrários também mudam de cor? Por que isto acontece?
As roupas têm, pois, uma dimensão simbólica que ultrapassa sua mera utilidade prática. Mais do que cobrir e proteger o corpo, elas revelam a situação, o estilo e a mentalidade de quem as veste.Assim, o branco do vestido nupcial representa a virgindade da donzela, e a riqueza dos seus adereços visa realçar a importância do compromisso matrimonial, abençoado por Deus com um Sacramento.

Ao ser ordenado, o sacerdote reveste- se de Cristo, e esse fato é representado em cada Santa Missa.
Tudo na Liturgia da Igreja é rico em simbolismos. Isto se nota também nas cores dos paramentos sagrados, as quais variam de acordo com o tempo litúrgico e as comemorações de Nosso Senhor, da Virgem Maria ou dos Santos. Basicamente, são quatro as cores litúrgicas: branco, vermelho, verde e roxo. Além destas, há quatro outras que são opcionais, isto é, podem ser usadas em circunstâncias especiais: dourado, rosa, azul e preto.
No início da Igreja havia uma certa preferência pelo branco. Estas cores foram fixadas em Roma no século XII.

O branco simboliza a alegria, ressurreição, vitória, pureza e é usado nos tempos do Natal e da Páscoa, bem como nas comemorações de Nosso Senhor Jesus Cristo (exceto as da Paixão), da Virgem Maria, dos Anjos e dos Santos não-mártires.
O vermelho, símbolo do fogo da caridade,
Lembra o fogo do Espírito Santo. Por isso é a cor de Pentecostes. Lembra também o sangue. É a cor dos mártires e da sexta-feira da Paixão.
O verde simboliza o crescimento e a esperança. O verde é usado na maior parte do ano, no período denominado Tempo Comum .
Para os tempos do Advento e da Quaresma, a Igreja reservou o roxo, a cor da penitência. E estabeleceu duas exceções, que correspondem a dois interstícios de alegria em épocas de contrição: no 3º domingo do Advento e no 4º domingo da Quaresma, o celebrante pode trajar paramentos rosa.
E nas Missas pelos fiéis defuntos o celebrante pode escolher entre o roxo e o preto.

Cabe também mencionar o uso litúrgico da cor azul para Festas e Solenidades da Santíssima Virgem Maria.
O azul não é uma das cores litúrgicas, mas seu uso é largamente difundido no Brasil e América Latina. A origem de seu uso litúrgico moderno parece remontar a um privilégio papal dado a algumas dioceses espanholas para seu uso somente na Solenidade da Imaculada Conceição. Também a favor do azul, o recente uso que S.S. Papa Bento XVI fez de tal cor, em sua visita ao santuário mariano austríaco de Mariazell, de modo a demonstrar a tolerância com o uso desta cor nas festas marianas.

Natividade de Nossa Senhora - 8 de Setembro




Hoje é comemorado o dia em que Deus começa a pôr em prática o Seu plano eterno, pois era necessário que se construísse a casa, antes que o Rei descesse para habitá-la. Esta "casa", que é Maria, foi construída com sete colunas, que são os dons do Espírito Santo.


Deus dá um passo à frente na atuação do Seu eterno desígnio de amor, por isso, a festa de hoje, foi celebrada com louvores magníficos por muitos Santos Padres. Segundo uma antiga tradição os pais de Maria, Joaquim e Ana, não podiam ter filhos, até que em meio às lágrimas, penitências e orações, alcançaram esta graça de Deus.


De fato, Maria nasce, é amamentada e cresce para ser a Mãe do Rei dos séculos, para ser a Mãe de Deus. E por isso comemoramos o dia de sua vinda para este mundo, e não somente o nascimento para o Céu, como é feito com os outros santos.




Sem dúvida, para nós como para todos os patriarcas do Antigo Testamento, o nascimento da Mãe, é razão de júbilo, pois Ela apareceu no mundo: a Aurora que precedeu o Sol da Justiça e Redentor da Humanidade.


A Natividade de Nossa Senhora é uma festividade religiosa celebrada precisamente nove meses depois de comemorar a Imaculada Conceição da Virgem Maria.


Esta festa, mais antiga no Oriente, introduziu-se provavelmente na liturgia romana durante o século VII.


Inocêncio IV deu-lhe Oitava no Concílio de Lião, em 1245. No último século, serviu esta data de 8 de Setembro para fixar nove meses antes, a 8 de Dezembro, a festa da Imaculada Conceição. A Santa Igreja, celebrando a natividade da Santíssima Virgem, canta a aurora da redenção, que despontou com o aparecimento de Maria no mundo.


Eva deu à luz a seus filhos na dor, Maria dá à luz o filho de Deus com júbilo. Eva levava consigo as nossas lágrimas, Maria as nossas alegrias. Invoquemos a Virgem a Virgem Santíssima com aquela invocação tão bela da sua ladainha: “Causa de nossa alegria“.



"Quereis saber quão feliz, quão alto é e quão digno de ser festejado o Nascimento de Maria? Vede o para que nasceu. Nasceu para que dela nascesse Deus.


(...) Perguntai aos enfermos para que nasce esta celestial Menina, dir-vos-ão que nasce para senhora da Saúde;


Perguntai aos pobres, dirão que nasce para Senhora dos Remédios;


Perguntai aos desamparados, dirão que nasce para Senhora do Amparo;

Perguntai aos desconsolados, dirão que nasce para Senhora da Consolação;

Perguntai aos tristes, dirão que nasce para Senhora dos Prazeres;

Perguntai aos desesperados, dirão que nasce para Senhora da Esperança.

Os cegos dirão que nasce para Senhora da Luz;

Os discordes, para Senhora da Paz;

Os desencaminhados, para Senhora da Guia;

Os cativos, para Senhora do Livramento;

Os cercados, para Senhora da Vitória.

Dirão os pleiteantes que nasce para Senhora do Bom Despacho;

Os navegantes, para Senhora da Boa Viagem;

Os temerosos da sua fortuna, para Senhora do Bom Sucesso;

Os desconfiados da vida, para Senhora da Boa Morte;

Os pecadores todos, para Senhora da Graça;

E todos os seus devotos, para Senhora da Glória.

E se todas estas vozes se unirem em uma só voz, dirão que nasce para ser Maria e Mãe de Jesus”

(Pe. Antonio Vieira. Sermão do Nascimento da Mãe de Deus)

Onde nasceu Nossa Senhora?



Essa pergunta, versando sobre tema muito caro aos católicos, por diversas razões não encontra fácil resposta.


Para entender a escassez de informações nos primeiros séculos da Igreja, sobre a vida de Nossa Senhora, convém levar em conta as particularidades daquela época.

O mundo pagão, por efeito da decadência em que se encontrava, era politeísta, ou seja, os homens adoravam simultaneamente vários deuses.

Os pagãos não achavam ilógico nem absurdo que houvesse várias divindades, ou que elas não fossem perfeitas. Pior ainda. Consideravam normal que os deuses dessem exemplo de devassidão moral, sendo, por exemplo, adúlteros, ladrões ou bêbados.

Obviamente, nem todos os deuses eram apresentados como subjugados por esses vícios, mas o fato de haver vários deles nessas condições tornava imensamente árduo para os pagãos entender a noção católica do verdadeiro e único Deus, de perfeição infinita.


Por isso a primitiva Igreja teve muito cuidado ao apresentar Nossa Senhora como Mãe de Deus, pois aqueles povos, com forte influência do paganismo, rapidamente tenderiam a transformá-la numa deusa.

Somente após a queda do Império Romano do Ocidente e a sucessiva cristianização dos povos começou a Igreja – que nunca negou a importância fundamental da Virgem Santíssima na história da salvação – a colocar Nossa Senhora na evidência que lhe compete e a exaltar suas maravilhas. E com isso, a fazer um bem indescritível às almas dos fiéis.


É fácil compreender por que nesse longo período, cerca de 400 anos, muitas informações a respeito da Santíssima Virgem tenham se perdido e outras se encontrem em fontes não inteiramente confiáveis.

Não obstante, a Tradição da Igreja conservou fielmente aqueles atributos d’Ela que eram necessários para a integridade da fé dos católicos. O essencial foi transmitido, e, para um filho que ama sua Mãe, qualquer dado a respeito d’Ela é importante.



Entre esses dados, sobre os quais um véu de mistério permaneceu, está o local em que nasceu Nossa Senhora.


Belém, Seforis, ou Jerusalém?



Três cidades disputam a honra de ter sido o local de nascimento da Mãe de Deus.


A primeira é Belém. Deve-se essa tradição ao fato de Nossa Senhora ser de estirpe real, da casa de Davi.

Sendo Belém a cidade de Davi, foi essa a razão pela qual São José e a Virgem Santíssima – ambos descendentes do Profeta-Rei – dirigiram-se àquela localidade, por ocasião do censo romano que ordenava a todos registrarem-se no lugar originário de suas famílias.

Por isso, o Menino Jesus nasceu em Belém, e é aclamado, no Evangelho, como Filho de Davi. O principal argumento dos que sustentam a tese de que Nossa Senhora nasceu em Belém encontra-se num documento intitulado De Nativitate S. Mariae, incluído na continuação das obras de São Jerônimo.


Outra tradição assinala a pequena localidade de Seforis, poucos quilômetros ao norte de Belém, como o local do nascimento da Virgem. Tal opinião tem como base que, já na época do Imperador Constantino, no início do século IV, foi construída uma igreja nessa localidade para celebrar o fato de ali terem residido São Joaquim e Santa Ana, pais de Nossa Senhora.

Santo Epifânio menciona tal santuário. Os defensores de outras hipóteses assinalam que o fato de os genitores da Virgem Santíssima terem morado lá não indica necessariamente que Nossa Senhora haja nascido naquela localidade.


A hipótese que congrega maior número de adeptos é a de que Ela nasceu em Jerusalém. São Sofrônio, Patriarca de Jerusalém (634-638), escrevendo no ano 603, afirma claramente ser aquela a cidade natal de Maria Santíssima. São João Damasceno defende a mesma posição.


A festa da Natividade


Na Igreja Católica celebramos numerosas festas de santos.

Havendo, felizmente, milhares de santos, comemoram-se milhares de festas. Ocorre que não se celebra a data de nascimento do santo, mas sim a de sua morte — correspondendo ao dia da entrada dele na vida eterna.

Somente em três casos comemoram-se as festas no dia do nascimento: Nosso Senhor Jesus Cristo (Natal); o nascimento de São João Batista; e a natividade da Santíssima Virgem.

A festa da Natividade era celebrada no Oriente católico muito antes de ser instituída no Ocidente. Segundo uma bela tradição, tal festa teve início quando São Maurílio a introduziu na diocese de Angers, na França, em conseqüência de uma revelação, no ano 430.

Um senhor de Angers encontrava-se na pradaria de Marillais, na noite de 8 de setembro daquele ano, quando ouviu os anjos cantando no Céu. Perguntou-lhes qual o motivo do cântico. Responderam-lhe que cantavam em razão de sua alegria pelo nascimento de Nossa Senhora durante a noite daquele dia.

Em Roma, já no século VII, encontra-se o registro da comemoração de tal festa. O Papa Sérgio tornou-a solene, mediante uma grande procissão.

Posteriormente, Fulberto, Bispo de Chartres, muito contribuiu para a difusão dessa data em toda a França. Finalmente, o Papa Inocêncio IV, em 1245, durante o Concilio de Lyon, estendeu a festividade para toda a Igreja.


Comemoração na atualidade



Por uma série de motivos curiosos, a festa da Natividade é celebrada muito especialmente na Itália e em Malta. Sendo o povo italiano muito vivo e propenso a celebrações familiares, não surpreende esse fato.


Em Malta, a principal comemoração da festa consiste numa solene procissão na localidade de Xaghra.


Na cidade de Florença, no dia da festa, numerosas crianças dirigem-se ao rio Arno levando pequenas lanternas, que são colocadas na água e lentamente vão atravessando a cidade.


Na Sicília, na localidade de Mistretta, a população celebra a festa representando um baile entre dois gigantes. À primeira vista, pareceria que isto nada tem a ver com o fato histórico.



Mas ele corresponde a uma tradição: foi encontrada uma imagem de Santa Ana com Nossa Senhora ainda menina. Levada à cidade, a imagem misteriosamente retornou ao local onde havia sido achada, e os habitantes julgaram que só poderia ter sido levada por gigantes. Proveio dessa lenda o costume.

Em Moliterno, ao contrário, existe o lindo e pitoresco costume de as meninas da localidade fixarem pequenas candeias nos chapéus de seus trajes típicos. Em determinado momento desaparecem as outras luzes e só permanecem as das meninas, que executam uma dança regional.





Curiosamente, em muitas localidades as luzes desempenham papel determinante na festa. Podemos conjeturar uma razão para o fato: a Natividade de Nossa Senhora representou o prenúncio da chegada ao mundo da Luz de Justiça, Nosso Senhor Jesus Cristo.