Usada para construir a arca que salvaria Noé e sua família do dilúvio, também presente como matéria prima da Arca da Aliança, assim como na lenha carregada por Isaac para o sacrifício que seu pai Abraão iria oferecer em obediência a Deus, a madeira já prefigurava nestes sinais a cruz de Nosso Senhor.
Quando no deserto o povo fugia da opressão do Faraó, foi ao toque da vara de Moisés que as águas do Mar Vermelho se abriram para que o povo o atravessa-se incólume, e ao toque desta mesma vara a pedra jorrou água para matar a sede dos Israelitas.
Na construção do grande Templo realizada por Salomão, a acácia se distinguia entre as demais madeiras, assim como o cedro, devido a sua beleza durabilidade e flexibilidade para os trabalhos artesanais que ornamentariam a casa de Deus.
Foi também pela madeira, que o preço de nossa salvação foi pago, pois no lenho da cruz Nosso Senhor Jesus Cristo se entregou pelos nossos pecados, para que por sua morte a morte fosse vencida e o triunfo da vida portasse o troféu da ressurreição.
Contemplar a cruz é antes de mais nada, contemplar o amor; o que antes era símbolo de morte e maldição, agora torna-se o símbolo do amor de Deus por cada um de nós. Nela nos encontramos e deparamo-nos com a realidade da humanidade sofredora, que caminha confiante rumo a ressurreição.
Dois pedaços de madeira que abraçam toda a humanidade e nos convida a assumirmos a missão de anunciar a todo o Universo que Cristo venceu a morte e nos deu a vida.
Durante toda a história da arte cristã vemos muitas maneiras de contemplar este grande mistério expressado durante os séculos conforme a época, lugar e necessidade. Possivelmente temos na porta da Basílica romana de santa Sabina a primeira representação do Cristo crucificado; porém não um Cristo sofredor e escarnecido, como é típico do Barroco, mas um Cristo glorioso, cuja cruz invisível é personificada em todo Universo.
No Éden, a antiga árvore do Paraíso possuía o fruto do conhecimento do bem e do mal, o qual levou os primeiros Pais ao pecado e a morte, pois na sua ambição e desobediência queriam ser como Deus. Na nova árvore da vida, a cruz, plantada no Calvário, Deus se humilha ao extremo, deixando oculta toda sua divindade para que resplandecesse a glória de sua humanidade, a qual nos ensina o verdadeiro caminho da vida: o amor sem limites, pois “não há maior amor do que dar a vida pelos amigos.”
Que a contemplação da “madeira e da cruz” nos ajude a transformarmos toda nossa vida num supremo ato de louvor e gratidão ao Cristo redentor do gênero humano, que do alto do madeiro reina glorioso e ressuscitado sobre todo seu rebanho.
Olhando para o Crucificado, possa nosso coração exclamar com um êxtase de amor, assim como o fez São Francisco diante do Crucifixo de São Damião: “ó glorioso Deus altíssimo, ilumina as trevas do meu coração, concede-me uma fé verdadeira, uma esperança firme e um amor perfeito. Mostra-me Senhor, o reto sentido e conhecimento, a fim de que possa cumprir o sagrado encargo que na verdade acabas de dar-me. Amém.”
Dom Lourenço Palata Viola, OSB
