quarta-feira, 7 de março de 2018

A Comunhão Eucarística na mão pode ou não pode? ( Por Flávio A.Rosário teólogo)

A Comunhão Eucarística foi ministrada nas mãos dos comungantes até o século IX. Verificaram-se, porém, abusos e irreverências que levaram a Igreja a preferir dar a Eucaristia na boca dos fiéis [o que comprovou-se, na prática, aumentar o senso de devoção pelo Senhor Sacramentado e a consciência da Presença Real na Eucaristia]. Em nossos dias, a antiga praxe antiga foi restaurada sob certas condições que visam a garantir o respeito ao Santíssimo Sacramento. A Santa Sé enfatiza o direito, dos fiéis, de receber a Comunhão na boca desde que o desejem ou na mão.Não só de uma forma mas nas duas estão corretas.Isto só pode mudar se a diocese local definir como ela deseja sob a orientação do bispo.

Como deve se portar o fiel que deseja comungar na mão? Podemos receber a Eucaristia de qualquer maneira?
A educação litúrgica exige que se recordem às vezes coisas que se dão por sabidas. A Comunhão na mão é permitida a todo aquele que assim deseja comungar, de acordo com nossa Conferência Episcopal, que o solicitou à Santa Sé.
Como se comunga na mão? Temos de conhecer primeiro as disposições requeridas pela Igreja para que assim se comungue, visto que em muitas ocasiões os fiéis o fazem mal e de forma completamente desrespeitosa.
Deve-se ter cuidado com a dignidade do gesto, sem negar a presença real de Jesus Cristo na Eucaristia como se se tratasse de um simples pedaço de pão que pode ser recebido de qualquer forma:

Portanto, com relação a este modo de comungar em particular, deve-se dar cuidadosa atenção a algumas coisas que a própria experiência aconselha. Todas as vezes que a sagrada espécie for colocada sobre a mão do comungante, deve-se ter sempre atenção e cuidado, tanto da parte do ministro quanto do fiel, sobretudo quanto aos fragmentos que porventura caírem da hóstia. É necessário que a prática da Comunhão na mão venha acompanhada de instrução oportuna ou catequese sobre a doutrina católica referente tanto à presença real e permanente de Cristo sob as espécies eucarísticas quanto à reverência devida a este sacramento [1].

Os fiéis, ao comungarem na mão, e os ministros, ao distribuírem a sagrada Comunhão na mão, devem conhecer e respeitar as determinações da Igreja, a fim de salvaguardar o respeito e a adoração ao Senhor realmente presente. Por isto, todos têm de observar cuidadosamente o seguinte:

Parece útil chamar a atenção para os seguintes pontos:

1. A Comunhão na mão deve manifestar, tanto quanto a Comunhão recebida na boca, o respeito para com a real presença de Cristo na Eucaristia. Por isso, será preciso insistir, como faziam os Padres da Igreja, sobre a nobreza dos gestos dos fiéis. Assim, os recém batizados do fim do século IV recebiam a norma de estender as duas mãos fazendo “com a esquerda um trono para a direita, pois esta devia receber o Rei” (5.ª Catequese Mistagógica, n. 21, PG 33, 1125; S. João Crisóstomo, Hom. 47, PG 63, 898, etc.).

2. Seguindo ainda os Padres, será preciso insistir sobre o “Amém” que o fiel diz em resposta às palavras do ministro: “O Corpo de Cristo”. Este “Amém” deve ser a afirmação da fé: “Quando pedes a Comunhão, o sacerdote te diz: “O Corpo de Cristo”, e tu dizes: “Amém”, “é isto mesmo”; o que a língua confessa, conserve-o o afeto” (S. Ambrósio, De Sacramentis, 4, 25).


3. O fiel que recebe a Eucaristia na mão, levá-la-á à boca antes de voltar ao seu lugar; apenas se afastará, ficando voltado para o altar, a fim de permitir que se aproxime aquele que o segue.


4. É da Igreja que o fiel recebe a Eucaristia, que é a Comunhão com o Corpo de Cristo e com a Igreja. Eis porque o fiel não deve ele mesmo retirar a partícula de uma bandeja ou de uma cesta, como o faria se se tratasse de pão comum ou mesmo de pão bento, mas ele estende as mãos para receber a partícula do ministro da Comunhão.

5. Recomendar-se-á a todos, especialmente às crianças, a limpeza das mãos, em respeito à Eucaristia.

6. Será preciso previamente ministrar aos fiéis uma catequese do rito, insistir sobre os sentimentos de adoração e a atitude de respeito que se exige (cf. Dominicæ Cœnæ, n. 11). Recomendar-se-lhes-á que cuidem de que não se percam fragmentos de pão consagrado (cf. Congregação para a Doutrina da Fé, 2 mai. 1972, Prot. n. 89/71, em Notitiæ 1972, p. 227) [3].

7. Os fiéis jamais serão obrigados a adotar a prática da comunhão na mão; ao contrário, ficarão plenamente livres para comungar de um ou de outro modo.

Essas normas e as que foram recomendadas pelos documentos da Sé Apostólica atrás citados têm por finalidade lembrar o dever do respeito para com a Eucaristia independentemente do modo como se recebe a Comunhão.
Insistam os pastores de almas não só sobre as disposições necessárias para a recepção frutuosa da Comunhão, que, em certos casos, exige o recurso ao sacramento da Penitência; recomendem também a atitude exterior de respeito que, em seu conjunto, deve exprimir a fé do cristão na Eucaristia.


Ao distribuir a sagrada Comunhão na mão, o ministro deve ter o cuidado de que o comungante a receba dignamente, pondo as mãos em forma de cruz, à espera de que sobre elas o ministro coloque a sagrada hóstia, que será consumida diante dele. Evitar-se-á deste modo todo perigo de profanação ou sacrilégio: “Ponha-se especial cuidado em que o comungante consuma imediatamente a hóstia, na frente do ministro, e ninguém se desloque (retorne) tendo na mão as espécies eucarísticas. Se existe perigo de profanação, não se distribua aos fiéis a Comunhão na mão” [4].


Como devemos, em resumo, aproximar-nos da sagrada Comunhão? Como se deve comungar?
Aproximamo-nos sem pressa do ministro que nos dará a Comunhão e nos mantemos a uma distância razoável para que ele possa distribuir-nos facilmente a Comunhão.
Enquanto o fiel que está à nossa frente comunga, inclinamo-nos em adoração ao Corpo de Cristo, que iremos receber, ou, se assim preferirmos, colocamo-nos de joelhos no genuflexório, se houver.
O ministro que nos dá a Comunhão diz: “O Corpo de Cristo”, e nós respondemos em voz alta: “Amém”, para que ele nos ouça claramente, já que se trata de uma profissão de fé. Este “Amém”, profissão de fé pessoal do cristão diante do Corpo real de seu Senhor, foi muitas vezes comentado e explicado na Tradição da Igreja. Ouçamos, por exemplo, o que a este respeito disse Santo Agostinho:

Se queres, pois, entender o Corpo de Cristo, ouve o que diz o Apóstolo aos fiéis: “Ora, vós sois o Corpo de Cristo e cada um, de sua parte, é um dos seus membros” (1Cor 12, 27). Se vós, portanto, sois o Corpo de Cristo e membros seus, o vosso mistério está posto na mesa do Senhor: é o vosso mistério o que recebeis. Respondeis “Amém” ao que sois e, respondendo, o confirmais. Escutas, pois, “O Corpo de Cristo” e respondes “Amém”. Sê membro do Corpo de Cristo, para que o teu “Amém” seja verdadeiro [5].
Uma vez dito o “Amém”, podemos comungar na mão ou diretamente na boca. Diziam os Padres da Igreja:
Veneremo-lo o Corpo de Cristo com toda pureza de corpo e de alma. Aproximemo-nos dele com um ardente desejo e, pondo as mãos em forma de cruz, recebamos o Corpo do Crucificado [6].
Se decidirmos comungar na mão, devemos pôr a mão esquerda sobre a direita. Não pegamos a hóstia no ar, mas aguardamos que o ministro a coloque em nossas mãos, que formam como que um trono preparado para receber o grande Rei.
Feito isto, comungamos imediatamente e na frente do sacerdote. É preciso também tomar cuidado para que não fique em nossa mão nenhuma partícula, sob a menor das quais o Cristo inteiro permanece presente.
Se a Comunhão for distribuída sob duas espécies, devemos seguir as indicações que o diácono ou sacerdote nos derem. É bom lembrar, em todo o caso, que nunca é permitido “ao comungante molhar por si mesmo a hóstia no cálice, nem receber na mão a hóstia molhada” [7].Que todas estas orientações e conhecimentos ajudem a todos em nossas comunidades.

Referências
Congregação para o Culto Divino, Instrução “Immensæ caritatis“, de 29 jan. 1973, n. 4 (AAS 65[1973] 270).
Id., Notificação sobre a Comunhão na mão, de 3 abr. 1985 (Prot. n. 720/85); cf. Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Diretório da Liturgia e da Organização da Igreja no Brasil 2012. Brasília, 2011, pp. 31-32.
A Notificação esclarece ainda em nota de rodapé: “De fato, convém aconselhar os fiéis a que coloquem a mão esquerda sobre a direita, para poder pegar facilmente a hóstia com a mão direita e assim levá-la à boca”.
Id., Instrução “Redemptionis Sacramentum “, de 25 mar. 2004, n. 92 (AAS 96 [2004] 577).
Agostinho de Hipona, Sermo 272 (PL 38, 1247).
João Damasceno, De fide orth. 4.13 (PG 95, 1150B).
Congregação para o Culto Divino, Instrução “Redemptionis Sacramentum“, de 25 mar. 2004, n. 104 (AAS 96[2004] 579).
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1. Notitiae n.392.393/1999
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Fonte:
BETTENCOURT, Estevão. Pergunte e Responderemos n.457. Rio de Janeiro: Mosteiro de São Bento, jun/2000.
Site: O fiel Católico.

quarta-feira, 1 de março de 2017

O concílio Vaticano I- Flávio A. Rosário

O concílio Vaticano I- Flávio A. Rosário
Tensão entre liberais (reconciliação com o mundo moderno, autonomia do temporal e respeito à pessoa; Le Correspondant, Le Français, de Broglie, Falloux, Dupanloup, Montalembert) e intransigentes (catolicismo autoritário, hostilidade a mudanças e rejeição do regime de liberdades civis e políticas; La Civiltà Cattolica, L’Univers de Louis Veillot, Dom Guéranger, abade de Solesmes, Dom Pio, bispo de Poitiers) e entre ultramontanos (direitos da Santa Sé, infalibilidade do papa) e galicanos (colegialidade do episcopado, autonomia das Igreja nacionais e independência dos poder civil; Darboy, arcebispo de Paris, Maret, decano da faculdade de teologia da Sorbonne, o cônego Döllinger, de Munique).
Em  6.2.1869 um artigo de Civiltà, intitulado Corrispondenza di Francia, referia a opinião de alguns católicos franceses que esperavam não só uma reafirmação das doutrinas do Syllabus, como também  a definição por aclamação da infalibilidade pontifícia. Poucas semanas depois, sob o pseudônimo de Janus, o teólogo Döllinger, professor em Munique, publicou num periódico de Augsburg cinco artigos O papa e o concílio, reunidos depois em um livro: criticava as teses extremas defendidas por Veillot e a doutrina ainda discutível sobre a infalibilidade; não atacava o primado de jurisdição do papa, mas o modo como esse primado foi se desenvolvendo – de uma presidência exercida somente em casos de necessidade a um papado, ou seja, a uma estrutura pesada que reivindica o direito de intervir em toda parte com certa frequência; em suas formas atuais, a autoridade pontifícia seria em grande parte fruto de usurpações cometidas na Idade Média, processo reforçado agora pelo ultramontanismo.
Dupanloup, bispo de Orléans, diante da ação de Veillot (coleta de assinaturas e campanha no L’Univers), publicou um opúsculo sobre a inoportunidade da definição, pois criaria dificuldades ao ecumenismo e ao diálogo com os Estados; uma vez que em 18 séculos nunca foi preciso afirmá-la, é suficiente a fé na infalibilidade da Igreja.

Pio IX (Giovanni Maria Mastai Ferretti, 1792–1878; dos 15 aos 30 anos sofreu ataques de epilepsia; formação incompleta, emotivo).
O calor humano de Pio IX (1846-78), a devoção ao papa (La Civiltà: “quando o papa medita, é Deus que pensa nele”) e a tendência a vê-lo como mártir.
Em 1849 o cardeal Lambruschini sugeriu a Pio IX a convocação de um concílio para restaurar a fé católica e reforçar a disciplina.
Consulta aos cardeais da Congregação dos Ritos e ao Sacro Colégio (6.12.1864); a maioria dos consultores é ultramontana.
Em março de 1865 Pio IX constituiu uma Congregação diretória, que recolheu em segredo pareceres de 36 prelados europeus; no ano seguinte houve consultas junto aos bispos orientais.
Anúncio oficial: 26.6.1867.
A Congregação instituiu 5 comissões (deputações) preparatórias: doutrina, missão e Igrejas orientais, questões político-eclesiásticas, disciplina e religiosos. A ausência de muitos professores alemães nas comissões preparatórias suscitou protestos de Ketteler, bispo de Mainz; admissão de Hefele entre os peritos (posteriormente Hefele foi nomeado bispo de Regensburg).
Convocação: bula Aeterni patris (29.6.1868): face aos perigos do mundo, adotar medidas para favorecer o bem da Igreja e da sociedade; nenhuma menção à questão da infalibilidade; as autoridades civis não foram convidadas.
Ideia do concílio: assim como Trento frente aos protestantes, o concílio deveria opor-se ao racionalismo teórico e prático do século XIX, contando com a colaboração do episcopado.
Abertura: 8.12.1869.
Composição: dos 1050 convocados, 793 compareceram (35% de bispos italianos, 17% de franceses); 150 provinham das nações de língua inglesa, 30 da América Latina, 40 de países alemães, 50 do Oriente e 200 italianos; ausência dos chefes de Estado (o rei da Itália estava excomungado, o da Áustria era anticlerical, outros pertenciam à maçonaria), dos ortodoxos e protestantes e dos leigos.
Presidentes do concílio: os cardeais Reisach, De Lucca, Bizzarri, Bilio, Capalti, De Angelis (substituiu Reisach, falecido); secretário: Joseph Fessler, bispo de Sankt-Pölten, canonista austríaco.
Regulamento (imposto pelo papa); breve exame de textos (questões propostas pelo papa); propostas às comissões de postulados nomeadas pelo papa; exame pelas congregações gerais dos esquemas preparados pelas comissões de peritos; revisão pelas deputações eleitas pelos bispos (fé, disciplina, religiosos e ritos orientais), votação e promulgação solene.
Nos primeiros dias realizaram-se eleições para as 4 comissões.
As discussões conciliares sobre o esquema doutrinal da fé e os erros do racionalismo estenderam-se até inícios de janeiro de 1870. Redigido quase todo pelo jesuíta Franzelin, o esquema foi criticado por ser longo, escolástico e pouco ecumênico. O novo esquema sobre a fé, redigido pelos bispos Pie, Dechamps e Martin, com ajuda do jesuíta Kleutgen, foi examinado de 18.3 a 6.4. Strommayer deplorou o pouco irenismo com que se falava dos protestantes (afirmou que havia um desrespeito a eles na asserção de que “o protestantismo era a fonte de todos os erros e males”); o texto foi reformulado e promulgado solenemente em 24.4.

A questão da infalibilidade pessoal do papa:
Tendência ultramontana: o papa sozinho pode definir um dogma de fé, pois possui em totalidade o poder supremo de ensinar.
Manning, arcebispo de Westminster, Décahmps, arcebispo de Malines, Senestrey, bispo de Regensburg, Louis Veillot e seu jornal L’Univers.
Tendência galicana: o papa só pode exercer esse poder com o consenso dos bispos – concepção colegiada do magistério na Igreja.
Cardeal Rauscher, arcebispo de Viena, Simor, primaz da Hungria, Melchers, arcebispo de Colônia, Ketteler, bispo de Mainz, Lord Acton, historiador e discípulo de Döllinger.
Entre os infalibilistas (italianos, espanhóis, muitos franceses e os da América Latina) havia os moderados (oportunidade da definição) e os incondicionais.
Anti-infalibilistas: alemães e austríacos, muitos franceses, alguns americanos e um grupo do rito oriental.
Inoportunidade: tendências galicanas, dificuldade para o diálogo com os orientais e os protestantes; a conduta do papa Libério na controvérsia ariana do século IV e a condenação do papa Honório na controvérsia monotelítica (681, Constantinopla III).
13.3.1870: morte de Montalembert. Em fins de fevereiro redigira uma carta, publicada na Gazette de France, qualificando de uma espécie de adoração a devoção ultramontana a Pio IX (“o ídolo que os teólogos leigos do catolicismo estão erigindo no Vaticano”). Pio IX quis proibir suas exéquias, mas foi demovido por Veillot.

Em 21.1.1870 os padres receberam o texto do esquema doutrinal sobre a Igreja, redigido pelo teólogo jesuíta alemão K. Schrader. A Igreja é apresentada ao mesmo tempo como corpo místico de Cristo e sociedade perfeita; retomou-se a frase inserida no símbolo de Latrão IV: “Fora da Igreja não há salvação” e precisou-se que ela concernia apenas aos que se encontram nessa situação por falta própria. Faltava qualquer referência à infalibilidade pontifícia.
A Cúria romana não propôs a discussão sobre a infalibilidade. Em 30.12.1869 Senestrey e Manning começaram a coletar assinaturas para um postulado no qual se pedia que o concílio tratasse dessa questão; após um mês, 450 assinaturas a favor, 150 contra. Em 9 de fevereiro de 1870 a comissão De postulatis decidiu inserir nos trabalhos a questão da infalibilidade. Pio IX somente se decidiu em 1 de março, aderindo à tese infalibilista e permitindo que o tema fosse inserido na ordem do dia do concílio.
Após a resolução pontifícia redigiu-se um tanto às pressas um apêndice, que se acrescentou ao capítulo XI do esquema (o primado do pontífice romano). O conjunto deveria ser examinado e discutido após a aprovação da constituição Dei Filius.
Foi publicado um novo regulamento: a votação seria feita pela postura sentado/em pé; as emendas deveriam ser apresentadas por escrito; o pedido de dez padres poria fim a um debate; metade mais um para a aprovação.
Alguns padres propuseram que o concílio iniciasse imediatamente o exame do capítulo XI. Embora com pareceres contrários, inclusive de Bilio, um dos presidentes do concílio, em fins de abril o papa resolveu antecipar a discussão sobre a infalibilidade. Para contornar os inconvenientes, o capítulo foi retocado e aumentado, ou seja, foi transformado em autêntica constituição, dividida em 4 capítulos sobre a instituição do primado e sobre a infalibilidade do papa.
A discussão só começou em 13 de maio. O novo projeto foi elaborado por Schrader, com a colaboração do teólogo Mayer. Emendado pela comissão da fé, o esquema sobre o pontífice romano foi submetido ao debate geral de 14.5 a 3.6.
Em 18.6 o cardeal dominicano Guidi, arcebispo de Bolonha propôs uma fórmula de conciliação: o papa pode definir uma verdade de fé em virtude do poder doutrinal que possui em plenitude, mas deve realizar uma consulta prévia ao episcopado – a assistência divina prometida ao papa não repousa sobre uma revelação particular ou inspiração pessoal, mas sobre o sentimento da Igreja universal. Ante a proposta da menção do consenso prévio dos bispos. Pio IX repreendeu-o, exclamando: “Eu sou a tradição, eu sou a Igreja”.
A minoria conseguiu incluir no texto a afirmação de que o magistério infalível é exercido em nome de toda Igreja.
O esquema foi votado em 13 de julho: dos 601 votos: 451 placet; 88 non placet; 62 placet juxta modum; 50 não foram votar. Em 15.6 Darboy e Simon vão a Pio IX para conseguir incluir a necessidade do consenso dos bispos; os infalibilistas escrevem ao papa observando que a fórmula favorece os galicanos; sob a recomendação de Pio IX a deputação da fé acrescenta ‘non autem ex consensu Ecclesiae’ (não em virtude do consenso da Igreja).
Votação da constituição Pastor aeternus (18.7): 533 votos a favor, 2 contra; 114 se abstiveram de comparecer (62 já tinham deixado Roma). Às 4 da tarde, em meio a um furacão e a densas trevas que se abateram sobre a basílica vaticana, foi proclamada a constituição Pastor aeternus.
O concílio inacabado: em 19 de julho teve início a guerra franco-prussiana; o desmoronamento do Segundo Império e a proclamação da república na França permitiram às tropas italianas ocupar Roma em 20.9; a maioria dos bispos considerou ser prudente deixar Roma. Devido à falta de liberdade, o concílio foi  suspenso por tempo indeterminado (20.10.1870).

Decretos:
24.4.1870: constituição Dei Filius: exposição da doutrina católica sobre Deus, a revelação e a fé e condenação dos erros modernos; existência de um Deus pessoal que criou o mundo com plena liberdade; pela luz da razão, o ser humano pode conhecer algumas verdades (existência de Deus); necessidade da revelação para o conhecimento de verdades da ordem sobrenatural contidas nas Escrituras e na Tradição; a fé como dom de Deus e adesão humana (inteligência e vontade); não há oposição entre fé e razão; condenação do ateísmo materialista, do panteísmo, do racionalismo, do tradicionalismo e do fideísmo (sem negar fé e razão, separa-as radicalmente); compete à Igreja julgar o sentido e dar a interpretação verdadeira das Escrituras.
18.7.1870: constituição Pastor aeternus: instituição divina da Igreja, a unidade dos fiéis na fé e na caridade, o ministério episcopal e o papel de Pedro como princípio da unidade e seu fundamento visível, a concessão do primado de jurisdição a Pedro e sua transmissão ao sumo pontífice (perpetuidade do primado de Pedro nos pontífices romanos) e o magistério infalível do pontífice romano como aspecto do primado apostólico geral (com base nessas premissas, qualifica e circunscreve a infalibilidade pessoal do papa).
– primado jurídico do pontífice romano: “poder pleno e soberano de jurisdição sobre toda a Igreja”; jurisdição ordinária, imediata, verdadeiramente episcopal e sobre todos os fiéis.
O papa tem poder pleno e soberano de jurisdição sobre toda a Igreja e sobre cada um dos fiéis, e este poder é ordinário, imediato e verdadeiramente episcopal.
Ordinário não significa habitual ou cotidiano, mas anexo ao cargo, portanto não delegado.
Imediato: não está obrigado a exercer seu poder por intermédio do  bispo local. Ele pode exercer seu poder, mas não está obrigado a fazê-lo (só quando exigido por sua missão primacial no colégio episcopal).
Verdadeiramente episcopal: seu poder é da mesma natureza dos bispos.
– infalibilidade pontifícia: proclama-se como dogma divinamente revelado que o pontífice romano é infalível quando fala ex cathedra, ou seja, quando como mestre universal (pastor e doutor de todos os cristãos) propõe doutrinas ou dirime questões em matéria de fé e moral; por conseguinte, “as definições do pontífice romano são irreformáveis por si mesmas e não em virtude do consenso da Igreja”.
A minoria ajudou a nuançar o texto. O concílio apresentou as condições para o exercício do magistério infalível: a infalibilidade pessoal do papa não é absoluta, mas se exerce em dois domínios (fé e moral); não é pessoal (dom habitual), não é separada, mas em função e em nome de toda Igreja.


Reações ao concílio: o governo austríaco ab-rogou a concordata de 1855; adesão do episcopado (Dupanloup em 10.2.1871, Darboy em 1.3, Strossmayer em 12.1872) e o cisma dos Velhos Católicos (grupo alemão em torno de Döllinger que, sem sua adesão, chega ao cisma; alta e média burguesia; buscaram uma hierarquia junto aos bispos jansenistas).

A Igreja em meio ao liberalismo

A Igreja em meio ao liberalismo-Flávio A. Rosário 

O liberalismo é o resultado do processo que se iniciou com o renascimento e humanismo, desenvolveu-se com a reforma protestante e a filosofia moderna e colheu seus últimos frutos com a  revolução de 1789.
A preocupação de salvaguardar a liberdade assegurou a prevalência do poder legislativo sobre o executivo, dando origem ao sistema parlamentar. O mito da liberdade determinou um forte desenvolvimento do laicismo.
Revoluções liberais a partir de 1830: deposição de Carlos X na França; aparecimento das ideias republicanas e dos primeiros agrupamentos políticos socialistas.
1847: abdicação de Luís Filipe; 1848: intensificação do socialismo: revoluções na Itália (contra a Áustria) e na Alemanha (contra a Prússia).
Triunfo do liberalismo econômico: supressão das corporações e veto às coalizões (liberdade de trabalho).
– amoralismo econômico: economia separada da moral: as leis econômica baseiam-se na relação oferta/procura e não se pode atribuir nenhum juízo de valor às consequências que elas trazem; o salário é visto como mercadoria, sujeito às oscilações do próprio mercado).
Nos anos 1970 a Zâmbia devia três milhões de dólares à Romênia por uma compra de máquinas agrícolas. O norte-americano Michael Sheehan comprou os direitos dessa dívida 20 anos depois ao preço de três milhões. Como a Zâmbia demorava para fazer o pagamento, em 1999 Sheehan recorreu aos tribunais e o juiz condenou o país africano a pagar-lhe 17 milhões. Quando um repórter da BBC lhe perguntou se não sentia remorsos por fazer negócio com a miséria dos mais pobres, Sheehan respondeu sem corar: “Não é minha culpa. A única coisa que fiz foi um investimento”.
– livre concorrência (seleção e aperfeiçoamento do produto).
– não intervenção estatal e individualismo: proibição do contrato coletivo e das associações profissionais. Adam Smith e David Ricardo.

A Igreja em meio ao Regime liberal
O governo vê a Igreja como uma associação separada do Estado, cuja união é da mesma natureza que qualquer outra união ideológica; ela é aceita ou privilegiada apenas na medida de sua utilidade social.
a) princípio fundamental: separação entre Igreja e Estado (são distintos e totalmente separados); sociedade oficialmente não cristã.
Fim da função do “braço secular” e do conceito de “religião de estado”: afirmação da liberdade de consciência e de culto, considerada direito inato de cada homem.
b) diferença de natureza: coletiva X relação individual com Deus.
Origem puramente humana, convencional, da sociedade e da autoridade: o titular da autoridade é um simples mandatário.
c) diferença de finalidade: temporal X ultraterrena.
d) leis civis X leis canônicas.
e) assistência e previdência social X caridade.
f) instrução pública X ensino religioso.
g) fim das imunidades eclesiásticas.

Tipos de separação:
a) separação pura: liberdade efetiva; respeito às respectivas competências; colaboração, matrimônio civil e reconhecimento do matrimônio religioso; associações religiosas (trusteism). Liberalismo anglo-saxão.
b) separação mista ou parcial: manutenção de privilégios especiais em vista do bem comum (leis de 1825 e união entre católicos e liberais na Bélgica).
c) separação hostil: jurisdicionalismo liberal ou não confessional; anticlericalismo; confisco dos bens eclesiásticos, laicização da escola, supressão das ordens religiosas mas permissão da vida comum, matrimônio civil; tentativas de aniquilamento. Países latinos.
Diferença entre jurisdicionalismo do Antigo Regime (Igreja útil ao Estado) e da sociedade liberal (eliminar a influência da Igreja).

Três fases da separação Igreja/Estado na América Latina:
a) conservação da união Igreja/Estado após a independência: reivindicação do padroado.
b) separação hostil: liberais X clero conservador. Colômbia, 1853, com Obando e 1881 com Masquera; México, 1857, com Benito Juárez e Lerdo de Tejada, e nova linha com Muñoz em 1880.
c) regime separatista.

Católicos intransigentes:
De Maistre (1753-1821), Lamenais (1782-1854), Veuillot (181-1883), Manning.
O liberalismo é intrinsecamente perverso (especialmente a liberdade de consciência e de imprensa); maniqueísmo histórico-cultural: confusão dos planos político e religioso (cardeal Gazzola, do Santo Ofício)
Resistência à inovação técnica (recusa de Gregório XVI à ferrovia) e à extensão da cultura (manutenção da sociedade hierarquizada).
União mais estreita com o papa: ultramontanismo.
Defesa das estruturas cristãs da sociedade para facilitar o cumprimento dos deveres religiosos.
Cardeais zelantes X políticos.
Aspectos positivos: crítica radical dos princípios liberais; luta contra a laicização (escola e parlamento).
Aspectos negativos: crítica em bloco do liberalismo, sem as necessárias distinções.

Católicos liberais:
Gioachino Ventura, Rosmini, Döllinger, Montalambert.
Encontro da fé tradicional com o novo clima de 1789 (nova relação entre sociedade religiosa e política).
A causa da liberdade é a causa da religião (no Antigo Regime era limitada); o fim do constrangimento à fé; a dignidade da pessoa humana; os princípios liberais como ideias cristãs que precisavam ser domesticadas e reduzidas à razão.
Maior distinção entre as sociedades, que possuem fins e meios próprios.
Aprofundamento do cômputo espiritual da Igreja. Renúncia ao prestígio como sustento da própria autoridade.
Valorização dos aspectos locais; descentralização; condenação do eclesiasticismo pós-tridentino e valorização do leigo.
A renovação interna da Igreja como pressuposto indispensável para a conquista de uma autêntica liberdade e para um influxo sobre o mundo moderno (os princípios cristãos, livremente aceitos, inspirarão a vida política e civil).
Perigos: esquecer ou subvalorizar as consequências negativas da liberdade; a valorização da consciência poderia desvalorizar a norma objetiva e induzir ao indiferentismo e ao individualismo.

A Santa Sé:
Luta pela manutenção do catolicismo como religião de estado.
Aliança com regimes autoritários (França e Áustria) para combater o inimigo comum: o liberalismo.
Preferência pela política concordatária à separatista, por considerar que correspondia mais à natureza da Igreja, sociedade independente e soberana, e oferecer uma garantia jurídica contra o perigo de ingerências estatais. Concordatas: Áustria (1855), Espanha (1862).
Entre laicistas e reformistas, optou por cerrar as fileiras em torno da autoridade suprema.

O magistério pontifício:
15.8.1832: Gregório XVI, Mirari vos: condenação dos princípios do liberalismo religioso e político (liberdade de culto, de consciência e de imprensa, do indiferentismo e da separação entre Igreja e Estado).
8.12.1864: Pio IX, Quanta cura: denúncia do racionalismo ímpio e do liberalismo; reprovação do comunismo, do socialismo e do liberalismo econômico; recusa do galicanismo.
8.12.1864: Pio IX, Syllabus, condenação do panteísmo, naturalismo, racionalismo, indiferentismo, da moral leiga, do utilitarismo, da separação entre sociedade e contrato no matrimônio, das liberdades de culto, pensamento e imprensa; afirmação da independência plena da Igreja em relação ao Estado.

Aspectos positivos: necessidade de acordo entre Igreja e mundo moderno; necessidade do fim da união estreita entre altar e trono; respeito à consciência; concepção da verdade como conquista pessoal, livre e consciente; necessidade de uma nova estratégia para a defesa da Igreja e da inspiração cristã da sociedade; formação da consciência e da opinião pública por meio da escola, da imprensa e de outras formas de apostolado, sobretudo da parte dos leigos.

Aspectos negativos: falta de um aprofundamento teológico da questão (oscilação entre uma concepção instrumental da liberdade em função dos direitos da Igreja e a aceitação da liberdade como um valor em si mesmo); algumas concessões alheias à genuína tradição cristã (mais disposição a admitir os aspectos positivos do liberalismo do que a descobrir e combater seus limites); não advertência da gravidade do problema social, limitando-se ao paternalismo.


Olhar Deus face a face. Artigo de Gianfranco Ravasi

Olhar Deus face a face. Artigo de Gianfranco Ravasi
                                           
A epifania divina está na palavra criadora e salvadora que rompe a noite do nada. Esse contraste entre visibilidade e mistério constitui a mais incisiva representação da dialética transcendência-imanência própria do divino. Testemunha altíssima desse cruzamento é a história da arte.

A análise é de Gianfranco Ravasi, cardeal presidente do Pontifício Conselho para a Cultura, em artigo publicado no jornal Il Sole 24 Ore, 18-11-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"Deus falou a vocês do meio do fogo. Vocês ouviram o som das palavras, mas não viram nenhuma forma: ouvia-se apenas uma voz". Assim Moisés, no livro do Deuteronômio 4,12, resume a experiência vivida por Israel no Sinai. Daquele pico, de fato, havia descido o gélido preceito que abre o Decálogo: "Não farás para ti imagem alguma...". A epifania divina está na palavra criadora e salvadora que rompe a noite do nada: "No princípio, Deus disse: Faça-se a luz!".
É ainda Moisés que ouve o Senhor responder: "Tu não poderás ver o meu rosto, porque ninguém pode vê-lo e continuar com vida". Assim, há um dramático silêncio icônico na religião bíblica. Um silêncio que, no entanto, é potente e paradoxalmente rompido.
De fato, o Deus bíblico não é um nume obscuro, semelhante a "um emaranhado de fios do qual não se encontra o início", como se dizia do deus sumério Enlil. Ele é uma pessoa que usa o pronome "eu" e o verbo fundamental do "ser": "Eu sou aquele que sou", declara a Moisés na sarça ardente. Na realidade, o antropomorfismo se torna uma via representativa constante, sendo o homem e a mulher a sua "imagem" viva: "E Deus criou o homem à sua imagem; à imagem de Deus ele o criou; e os criou homem e mulher" (Gênesis 1,27). Por isso, ele terá um rosto, uma boca, orelhas, até um nariz que bufa na "ira" (em hebraico, o onomatopaico 'af que encarna o "soprar" indignado), braços, mãos, pés, coração e se revelará como pai, mãe, esposo e assim por diante. Por isso, com evidente oxímoro (paroxismo) com relação à citada negação da exposição do rosto, dir-se-á de Moisés que, com ele, o Senhor "falava face a face, às claras e sem enigmas; e ele vê a imagem do Senhor" (Números 12,8).
O ápice é atingido no cristianismo, onde a Palavra divina eterna e transcendente se faz sarx, "carne", ou seja, figura humana com um rosto preciso, ações e palavras concretas, nascimento e morte. E é São Paulo que define Jesus Cristo como eikôn, "ícone/imagem do Deus invisível" (Colossenses 1,15). Esse contraste entre visibilidade e mistério, coexistente em contraponto, constitui a mais incisiva representação da dialética transcendência-imanência própria do divino.
Testemunha altíssima desse cruzamento é a história da arte, e um estudioso francês, historiador e teólogo, professor da Universidade de Estrasburgo, François Boespflug, tentou contar a sua história em um ensaio monumental, que, a nosso ver, é uma verdadeira joia crítica, fruto de 30 anos de pesquisas e análises iconográficas. É um daqueles livros absolutamente indispensáveis para todos aqueles que querem seguir a trama artística dos dois milênios que temos às costas no seu filão mais significativo, e é – devemos confessar com uma ponta de inveja – uma daquelas obras que sonhamos em vão em sermos capaz de escrever.
Felizmente ela está agora diante de nós com as suas 12 etapas que marcam diacronicamente a história icônica de Deus. E é justamente partindo do "peso do Decálogo", com a sua proibição e as relativas recaídas, assim como com a herança judaica que o cristianismo arrasta consigo e supera, que se começa uma grandiosa aventura. Ela tem a sua primeira teofania na arte paleocristã, em que triunfa o modelo "cristomorfo", que consiste em retratar Deus como Cristo, baseando-se nas declarações do Jesus joanino: "Quem me vê viu o Pai... Eu e o Pai somos um".
Logo depois entra em cena o campo de batalha preparado pelo iconoclasmo, reação à quebra dos ícones, um choque que – para além das suas iridescências políticas – revela o duelo entre duas teologias às quais o segundo Concílio de Niceia (787) irá atribuir um ponto firme com a vitória dos ícones. Abre-se, assim, uma nova fase histórica que Boespflug chama de "fé visionária", justamente porque impera a visão do Pantocrator, mas também da Trindade confiada à célebre cena simbólica dos três hóspedes de Abraão (Gênesis 18).
Entram em cena os quatro séculos que vão do advento dos carolíngios (751) ao Concílio Lateranense II (1215), nos quais incumbe a Majestas Domini que é a releitura ocidental do Pantocrator oriental e é a livre e criativa reproposição da Trindade. A exploração visual desse dogma continua nos dois séculos seguintes, com a suntuosa multidão das Trindades europeias de perfis muito originais e até surpreendentes, prontos até mesmo ao recurso do símbolo geométrico e ao apofatismo.
Esse desvio é freado no século XV pelo ingresso do Deus patético e familiar com as piscadelas audazes, por exemplo, de um autor como o Mestre de Rohan (1430). Mas já está à porta a Reforma Protestante com todas as suas reservas e objeções às imagens e ao culto, objeções que geram a réplica do Concílio de Trento e da arte barroca. A tensão, na realidade, produz um fecundo e impressionante aparato artístico que é examinado em um poderoso capítulo de múltiplas e fascinantes facetas.
Agora, no entanto, já bate à porta o século das Luzes, que coloca em crise a imagem de Deus, mas também "a pintura religiosa que conhece uma clara queda, enquanto a inspiração bíblica da arte parece no ponto de se secar". Não faltam os sobressaltos (pense-se nos Nazarenos), mas o declínio parece ter começado, confirmado também pelo progressivo divórcio entre "grande arte" e "arte da Igreja" que se consuma no século XX.
Porém, se é verdade que se assiste ao eclipse da figura do Pai, tem-se um retorno da veemência humana do Crucificado (por exemplo, Rouault, o próprio Picasso, Chagall, Bacon, Baselitz, Rainer), enquanto o Concílio Vaticano II tenta retomar o diálogo, apresentando uma Igreja "amiga das artes", com muita dificuldade e com tentativas que ainda estão em andamento e das quais eu sou, em certo sentido, a própria testemunha direta, patrocinando uma primeira presença da Santa Sé na Bienal de Veneza.
Para evitar a objeção de que o seu itinerário é apenas eurocêntrico – escolha, além disso, necessária no mérito – a última etapa está reservada por Boespflug ao "Deus cristão fora da Europa" dos séculos XVI a XX, atestando assim também, nesse âmbito, o fenômeno da inculturação.
O esqueleto que aqui traçamos não dá conta da magnificência exegética, documental, iconológica e iconográfica da obra do estudioso francês. Ser levado pela mão por ele não é apenas participar de uma excepcional experiência didática, mas também é, ao mesmo tempo, viver uma verdadeira aventura do espírito, da cultura, da fé.
De fato, "o cristianismo latino é o único dos três monoteísmos que tolerou, depois aceitou, legitimou, suscitou e praticou uma extraordinária galeria de retratos do Deus único. Que ousou explorar o seu íntimo mistério, o seu segredo. Que, ao fazê-lo, empregou tanto talento e tanta audácia".
François Boespflug, Dieu et ses images: une histoire de l'Eternel dans l'Art, Paris, Bayard, 2008, 534 p.
Le immagini di Dio. Una storia dell'Eterno nell'arte. Torino, Einaudi, 2012, 582 p.



PIERRE TEILHARD DE CHARDIN (1881-1955)

Pierre Teilhard de Chardin nasceu em Sarcenat, Clermont-Ferrand, na França, em 1881. Ingressou na Companhia de Jesus em 1899, ordenou-se sacerdote em 1911 e lecionou geologia e paleontologia no Instituto Católico de Paris de 1920 a 1923. Em seguida, permaneceu no Oriente (China, Índia, Birmânia, Java) até 1946, com vários períodos de estudo passados nos Estados Unidos e na Somália-Etiópia. Em 1923, descobriu a civilização paleolítica do deserto de Ordos, depois participou das escavações de Chou-k'ou-tien, que levaram à descoberta do sinantropo (Sinantropos pekinensis). Retornou à pátria em 1946 e esteve novamente nos Estados Unidos em 1951 e em 1953, encarregado de organizar as pesquisas antropológicas no sul da África.

Famoso como cientista, seu pensamento religioso e teológico, porém, só teve sucesso e difusão mundial após sua morte, sobretudo devido à publicação de numerosas obras ainda inéditas, que indicavam à teologia contemporânea novos caminhos de investigação, mais arrojados, baseados na antropologia e na interpretação evolucionista da criação.

Toda sua vida e obra se resume nestas palavras: 'Sou um cidadão do Céu e um cidadão da Terra'. Dedicou-se arduamente aos estudos paleontológicos e biológicos, enquanto era um homem de profunda espiritualidade e vida interior. Procurou fazer uma síntese entre Cristianismo e Evolucionismo.

Dentre seus escritos mais famosos destacam-se: "O coração da matéria" (1950), "O fenômeno humano" (1955), "O surgimento do homem" (1956), "O lugar do homem na natureza" (1956), "O meio divino" (1957), "O futuro do homem" (1959), "A energia humana" (1962), "Ciência e Cristo" (1965).

O Santo Ofício chegou mesmo a divulgar um monitum, ou advertência simples, para a aceitação das idéias do religioso, no entanto, suas idéias marcaram e influenciaram profundamente o Concílio Vaticano II. Teilhard de Chardin regressou à França em 1946, mas ante a impossibilidade de publicar seus textos - que circularam em exemplares mimeografados e só foram editados após sua morte - transferiu-se para os Estados Unidos. Ingressou então na Fundação Wenner-Gren, de Nova York, que patrocinou, nos últimos anos de sua vida, duas expedições científicas ao continente africano.

As teorias teilhardianas, que tendem a interpretar a inspiração cosmológica e escatológica do cristianismo primitivo à luz da ciência moderna, embora recebidas com suspeitas e entre violentas polêmicas, contribuíram para a aproximação entre cristianismo e mundo científico moderno. Em 1950, Teilhard foi nomeado membro da Academia de Ciências de Paris.

Teilhard de Chardin morreu em Nova York, em 10 de abril de 1955, no domingo de Páscoa. Ele teria dito algumas semanas antes numa conversa com amigos: "Seria tão bom morrer na Páscoa!".

PENSAMENTOS DE TEILHARD DE CHARDIN

"Em virtude da criação, e mais ainda da Encarnação, nada é profano neste mundo, para quem sabe ver".

"Ter consciência de que o trabalho humano aperfeiçoa o reino de Deus, e que o esforço é uma participação na Cruz de Cristo, eis o privilégio do homem cristão. É a Deus e a Deus somente que ele forma através da realidade das criaturas".

"Eu amo-Vos Jesus pela multidão que se abriga dentro de vós, que ouço, com todos os outros seres, falar, rezar, chorar, quando me junto a Vós".

"Se não nos amarmos uns aos outros pereceremo, porque para ser mais é preciso unir sempre mais"."Ser é unir-se a si mesmo, ou unir os outros"

"É um dever sagrado para o cristão, em matéria de verdade humana, pesquisar e comunicar o que ele encontra aos profissionais e em nível profissional".

"Porque o Cristo é Ômega, o Universo está fisicamente impregnado, até no seu âmago material, da influência de sua natureza sobre-humana. A presença do Verbo encarnado penetra tudo como um Elemento Universal".

"Jesus crucificado não é um rejeitado ou um vencido. Pelo contrário. Ele é Aquele que carrega o peso e que sobreleva sempre, em direção a Deus, os progressos da marcha universal".

"Se meus escritos são de Deus, passarão. Se não são de Deus, só resta esquecê-los".

"O futuro é como as águas sobre as quais se aventurou o Apóstolo: carrega-nos na proporção de nossa fé".

"O Cristianismo mais tradicional, o do Batismo, da Cruz e da Eucaristia é susceptível de uma tradução onde passa o melhor das aspirações contemporâneas".

"Se eu pudesse mostrar apenas, por um instante que fosse, aquilo que eu vejo, acho que valeriam a pena todos os esforços de uma vida inteira".

"A única religião daqui por diante possível para o Homem é aquela que lhe ensinará, primeiro, a reconhecer, amar e servir apaixonadamente o Universo do qual ele faz parte".

"A coisa mais impossível de se deter no Mundo é a marcha de uma idéia. Nada poderia jamais impedir o Homem de procurar tudo pensar e tudo experimentar até fim".

"Tu que feres e curas, tu que resistes e és dócil, tu que arruínas e que constróis, tu que acorrentas e que libertas - seiva de nossas almas, Mão de Deus, Carne de Cristo, Matéria, eu te bendigo!"

"Quando, pela primeira vez, num ser vivo, o instinto se percebeu no espelho de si mesmo, foi o Mundo inteiro que deu um passo".

"Quanto mais o Homem se tornar Homem, menos aceitará se mover senão em direção do interminavelmente e indestrutivelmente novo: ... o Absoluto".

"O homem não é apenas um ser que sabe, mas é também um ser que sabe que sabe".

"A alma humana é feita para não estar sozinha".

"Matéria, Vida e Energia: as três colunas de minha visão e de minha felicidade interior".

"Todos os sofredores da Terra juntando seus sofrimentos para que a dor do Mundo se torne um grande e único ato de consciência, de sublimação e de união: ... uma das mais altas formas da obra da Criação".

"O Universo, considerado em seu conjunto, tem um fim e não pode errar de direção, nem parar no caminho".

"Todos os que querem afirmar uma verdade antes do tempo arriscam-se a descobrirem-se heréticos".

"Algum dia, quando tivermos dominado os ventos, as ondas, as marés e a gravidade... utilizaremos as energias do amor. Então, pela segunda vez na história do mundo, o homem descobrirá o fogo."

"Nosso Cosmo, no fundo, não é senão o lento nascimento de uma consciência universal".

"Amar a Deus não somente 'de todo o seu corpo e de toda a sua alma' mas detodo o Universo em evolução".

"Eu creio que o Universo é uma Evolução. Eu creio que a Evolução vai para o Espírito. Eu creio que o Espírito, no Homem, se conclui no Pessoal. Eu creio que o Pessoal supremo é o Cristo-Universal".

"Quando o Cristo, prolongando o movimento da sua encarnação, desce ao pão para substituí-lo, sua ação não se limita à parcela material que sua Presença vem, por um momento, volatizar. Mas a transubstanciação se aureola de uma real, ainda que atenuada, divinização de todo o Universo. Do elemento cósmico em que se inseriu, o Verbo age para subjugar e assimilar a Si todo o resto".

"Aquele que amou apaixonadamente a Jesus escondido nas forças que fazem morrer a Terra, a Terra, desfalecendo, abraçá-lo-á maternalmente em seus braços gigantes, e, com ela, ele despertará no seio de Deus".

"O grande acontecimento de minha vida foi a gradual identificação de dois sóis no céu de minha alma, sendo um o ápice cósmico postulado por uma evolução generalizada do tipo convergente e outro constituído pelo Jesus da fé cristã".

"Matéria, Vida e Energia: as três colunas de minha visão e de minha felicidade interior".

"Cada um de nós, quer queira quer não, liga-se, por todas as suas fibras materiais, orgânicas e psíquicas, a tudo que o circunda".

"Cada indivíduo carrega em si algo de todo o interesse final do Cosmo".

"Quando o sacerdote pronuncia as palavras: 'Isto é o meu corpo', as palavras incidem diretamente sobre o pão e diretamente transformam-no na realidade individual do Cristo. Mas a grande ação sacramental não pára neste acontecimento local e momentâneo... Há uma 'eucaristização' de toda a criação".

“Senhor, já que uma vez ainda, não mais nas florestas da França, mas nas estepes da Ásia, não tenho pão, nem vinho, nem altar, eu me elevarei acima dos símbolos até à pura majestade do Real, e vos oferecerei, eu, vosso sacerdote, sobre o altar da terra inteira, o trabalho e o sofrimento do mundo”.

ROMANO GUARDINI (1885-1968)


ROMANO GUARDINI (1885-1968)

Teólogo católico ítalo-alemão. Nasceu em Verona, na Itália, em 1885. Filho de um cônsul italiano, com um ano apenas, Romano Guardini se transferiu para a Alemanha. Estudante de química e de economia em Tubinga e em Berlim, cursou os estudos eclesiásticos e foi ordenado sacerdote. Foi professor de dogmática em Bonn (1922), de filosofia católica em Berlim (1923) e mestre na arte da linterpretação; exerceu uma considerável influência na juventude católica alemã depois da I Guerra Mundial. Sua cátedra foi suprimida em 1939 pelo regime nacional-socialista. Em 1945 foi convidado a ensinar na Universidade de Tubinga e, a partir de 1948, na de Munique, donde expunha seu próprio pensamento sobre uma cosmovisão católica do mundo. Para sustituir-lhe, depois de sua jubilação, se chamou a Karl Rahner. Em 1952 obteve o premio da paz dos livreiros alemães.

Não pertencendo à linha tomista, nem por isso foi menos obediente à tradição evangélica e patrística, procurou manter um contínuo contato com a cultura e filosofia modernas. Soube dar à mensagem cristã uma expressão moderna, tornando-a atual para um vasto público do século XX. De inspiração agostiniana, sua teologia, que explora amplos espaços da cultura, é mais uma evocação da vida de fé que uma sistematização dogmática.

A vida e a atividade de Romano Guardini têm sido a de um extraordinário e sábio professor. Sua numerosa obra persegue uma interiorização psicológica e poética de fundamento teológico, ao mesmo tempo que uma visão unitária e total da existência humana. A concessão do prêmio Erasmo, em 1961, foi o reconhecimento a um homem e à sua obra que contribuíram com a reconstrução da Europa na pax christiana e na cultura clássica. Permanecem para sempre as suas obras como O espírito da liturgia (1918), sem dúvida, o livro que mais contribuiu para fomentar o movimento litúrgico anterior ao Vaticano II.

Sua influência na teologia católico-romana do século XX foi grande. Isto pode ser visto especialmente em dois campos: o diálogo entre teologia e literatura (como fez, por exemplo, nos seus estudos sobre Dante), e a liturgia.

A teologia de Guardini é a suma de uma experiência, de uma práxis teológica espiritual e concreta. Trata-se, sem dúvida alguma, de uma pesquisa científica, sistemática, elaborada mediante método rigoroso e orgânico e, ao mesmo tempo, de caráter vital. O centro de sua teologia é a cristologia. Ao Cristo dedicou muitas obras e artigos.

Através de seus livros e conferências, Guardini fez da teologia e do pensamento cristão uma forma original, cheia de sensibilidade e de cultura, para aproximar-se do homem culto de hoje. Como P. Lippert, Karl Adam e outros, Guardini permanecerá como o renovador culto do pensamento cristão que prepara o caminho para o Concílio Vaticano II.

Entre suas muitas obras, cabe recordar O espírito da liturgia (1917), Cartas de autoformação (1922), O universo religioso de Dostoievski (1933), A morte de Sócrates (1934), Pascal (1934), A essência do cristianismo (1939), Liberdade, graça e destino (1948), A aceitação de si mesmo (1950) e O Senhor (1954).

Romano Guardini faleceu em Munique, em 1968.

PENSAMENTOS DE ROMANO GUARDINI

“O Homem, em geral, não reza de bom grado e experimenta facilmente tédio na oração, constrangimento, repugnância e até animosidade. Qualquer ocupação lhe parece mais interessante e importante e diz para si próprio: 'Não tenho agora tempo para rezar' ou 'agora é mais urgente fazer aquilo'. E geralmente o tempo não empregue na oração é desperdiçado nas coisas mais supérfluas.”

“Salvação quer dizer que a pessoa e a vida aí reencontram o próprio significado (...) em um sentido absoluto. Salvação quer dizer que o ser daquele que faz a experiência é preenchido e ordenado segundo uma linha de valores definitivos, justamente por meio do relacionamento com a realidade numinosa [realidade original, da qual decorre a realidade fenomênica] que se lhe manifesta; que, por meio dela, as perguntas sobre a causa, o sentido e a meta de sua vida recebem a verdadeira e última resposta”.

“A natureza, designa a totalidade das coisas; tudo o que é. Mais exatamente: tudo o que existe antes que o homem faça alguma coisa. E então: as estrelas, a terra, suas plantas, seus animais, e também o homem enquanto realidade orgânica e espiritual. Isso tudo se oferece à experiência como algo de profundo, de potente, de magnífico; como uma plenitude de vida à nossa disposição; mas logo depois também como uma lição para o nosso conhecimento, para a nossa conquista e para a nossa transformação”.

“Ser pessoa significa que não posso ser habitado por nenhum outro, e que, na relação comigo próprio, me encontro só comigo; que não posso ser representado por nenhum outro, e que sou único".

"A terra está impregnada de um êxtase cósmico: existe nela uma realidade e uma presença eterna que, normalmente, dorme sob o véu do cotidiano. A realidade eterna deve ser revelada agora, como numa epifania de Deus, através de tudo o que existe".

"O homem que envelhece vai tomando gradativamente consciência de que não é eterno. Agita-se menos e, assim, os sons das vozes que vêm do além se fazem ouvir".

“A realidade religiosa toca o ponto mais vivo do homem, o centro mais sensível do seu ser pessoal. Desperta, porém, afetos muito específicos, que se referem somente a ela: uma forma especial de pudor, de reverência, de temor, de desejo, de amor, de zelo, de beatitude, de confiança. Mas ela afeta também o centro normativo do homem, sua ‘consciência moral’ (...) O religioso toca essa consciência; propõe para ela suas exigências, sem forçar, apenas através do significado e do que é direito: o homem deve fazer ou deixar de fazer determinadas coisas, orientar em certa direção sua vida. Ele não pode contestar o direito desta exigência que lhe é proposta, pois ela é evidente. Pode apenas rejeitá-la, desobedecer-lhe, evitá-la (...) A experiência religiosa abre um ‘mundo’, entendida essa palavra no sentido objetivo e subjetivo: uma coordenação de coisas e fatos, de relações entre os homens e as coisas, de ações e de obras, de experiências e situações, toda uma outra ‘vida’”.

“Quanto melhor compreendermos a figura da mãe do Senhor a partir do Novo Testamento, melhor compreenderemos e viveremos a nossa vida cristã, tal como ela é realmente. Ela é aquela que trouxe o Senhor no mais profundo de si mesma; através de toda a sua vida e até na morte. Continuamente teve de experimentar como Ele, vivendo do mistério de Deus, dela se afastava. Continuamente se elevava Ele para mais alto, e assim foi ela sendo trespassada pela «espada» (Lucas 2,35); mas, sempre também, ela se ergueu mercê da fé até Ele, e O envolveu de novo. Até que, por fim, Ele não quis mais ser seu filho. O outro, que estava ao pé dela, devia tomar o seu lugar. Jesus estava só, ao alto, no cume mais agudo da criação, perante a justiça de Deus. Mas ela, numa compaixão derradeira, aceitou a separação — e, graças a isso, voltou de novo, na fé, para junto dEle. Sim, a verdade, «feliz aquela que acreditou!»”

HANS URS VON BALTHASAR (1905-1988)

Teólogo jesuíta suíço, nascido em 1905, em Lucerna. Foi um dos mais importantes do século XX (considerado o favorito do papa João Paulo II, que o fez cardeal nos últimos dias de sua vida). Estudou germanismo e filosofia em Viena, Berlim e Zurique (1923-1929) e filosofia e teologia em Lyon e Pullach (1929-1938).

Depois de ser ordenado sacerdote, exerceu seu ministério em Munique, Zurique e Basilea como capelão de estudantes. Sua obra recolhe as incitações mais fecundas do pensamento alemão e francês e da teologia cósmica dos padres gregos.

Ordenado padre em 1936, von Balthasar foi jesuíta até 1950. Nesse ano deixou a Sociedade de Jesus, como consequência de, no desempenho da sua missão, se ter tornado amigo e confessor de Adrienne von Speyr, uma viúva convertida ao catolicismo. As suas visões e escritos místicos, bem como a "Comunidade de S. João" (para leigos, fundada pelos dois), não eram reconhecidos pela Igreja, pelo que o teólogo se desvinculou dos jesuítas, como "aplicação da obediência cristã a Deus".

O teólogo que defendia uma "teologia ajoelhada", isto é, o pensamento teológico tem de estar ligado à oração e à adoração, em vez de ser mera análise sistemática, foi o grande ausente do Concílio do Vaticano II, embora ideias como a da Igreja santa mas "sempre necessitada de purificação e de penitência" lhe sejam caras.

Von Balthasar deixou uma importante coleção de escritos — alguns deles, tratados teológicos de grande profundidade. Balthasar também deixou obras leves, como "A tríplice guirlanda", que é um comentário sobre a Ave Maria.

Segundo outro grande teólogo, Henri de Lubac, ele era "o homem mais culto do nosso tempo"; ele "tentou colocar o tema da beleza como fundamento da reflexão teológica", explica o monge Enzo Bianchi. Von Balthasar quis construir uma teologia que intui na beleza da "figura" de Cristo o caminho fundamental para se chegar ao cristianismo. Os outros dois pontos fundamentais, a verdade e a bondade, não têm nenhuma possibilidade de atrair o homem, a não ser que este se sinta atraído pela beleza de Cristo crucificado, irradiada sobre todo o cosmos através da ressurreição. Segundo Balthasar existem três maneiras de entrar em contato com a beleza de Cristo: a Sagrada Escritura, definida como "espelho", "imagem canônica"; a Eucaristia, "mistério de fé", ou representação da plenitude da salvação cristã; e a Igreja, "forma imperfeita", que torna perceptível a beleza de Cristo.


Diz-se que Hans Urs von Balthasar era o teólogo preferido de João Paulo II. E, de fato, não pelas suas preferências, mas pelo contributo dado à Teologia e à Igreja, o Papa Wojtyla nomeou-o cardeal. A recepção do título, apenas honorífico, visto não poder participar em um conclave, estava marcada para 28 de Junho de 1988. Hans Urs von Balthasar entra para a glória do Senhor dois dias antes, quando se preparava para celebrar Missa.

Seus títulos mais representativos são, entre outros, A essência da verdade (1942), Teologia da história (1950), A oração contemplativa (1955), O problema de Deus no homem atual (1956), Glória, uma estética teológica (1961-1969), Pneuma e instituição (1974) e Se não vos fazeis como esta criança (1985). Em 1988 foi promovido ao cardinalato e criado cardeal a título póstumo.

Von Balthasar faleceu em 1988, em Basilea.

PENSAMENTOS DE HANS URS VON BALTHASAR

O texto seguinte se refere à cena do Evangelho em que Maria e José perdem Jesus, até o encontrarem no Templo.

"'Por que você fez isso conosco — diz a Virgem? Eu e o seu pai te procurávamos aflitos!' Ele (o Cristo) não pode poupá-los desse sofrimento. Só nessa busca um cristão pode 'encontrar'; uma busca tão séria que é como se tudo dependesse dessa coisa que se quer encontrar. Não há outra recomendação para a vida cristã a não ser esta: só podemos encontrar Jesus no lugar onde ele se entregou a Deus. Todo cristão deve procurá-lo 'entre parentes e conhecidos', para cima e para baixo da estrada; mas no final, sempre ouviremos dele as palavras: 'Não sabíeis que eu devo tratar das coisas do meu Pai?' Muito provavelmente, como Maria e José, a princípio não entenderemos nada, e teremos de procurar ainda mais. Maria Madalena o procura no sepulcro, mas depois que Ele se deixa encontrar, ela tenta segurá-lo, e ele desaparece. Da mesma forma, ele some da vista dos discípulos de Emaús no momento em que, finalmente, eles conseguem identificá-lo. Nós só o encontramos definitivamente 'no lugar do Pai', no céu, — isto é, quando 'encontrar' já não significa delimitar Deus no nosso próprio espaço, mas significa que nós fomos 'encontrados' por Deus, que nós entramos no espaço Dele, que nós somos 'conhecidos por Deus', como diz são Paulo. 'Deus é infinito, de modo que continuaremos procurando por Ele mesmo depois de tê-lo encontrado' (Santo Agostinho)".

"Esse total dom de si, para o qual o Filho e o Espírito Santo respondem, repetirão, significa algo como uma "morte", uma primeira e radical "kenose", se se quiser: uma "super morte", que se encontra como aspecto de todo amor e que fundamentará no interior da criatura tudo aquilo que nela poderá ser uma boa morte: do esquecer-se de si mesma pela criatura amada até aquele supremo amor que "dá a vida por seus amigos" .

"A Teologia é uma ciência 'de joelhos'".

"A infância e a morte estão uma ao lado da outra: o seu mistério essencial chama-se simplesmente. entregar-se a si mesmo de forma completa. A criança manifesta-se no mundo nua no corpo e nua do espírito, enquanto inerme deve confiar-se ao mistério do Pai. Tudo aquilo que se encontra entre onascimento e a morte constitui um parêntese. A sua seriedade faz parte do jogo de Deus: todavia, no início e no final revela-se sem qualquer obstáculo o modo de jogar: o Filho do Pai, que procede eternamente dele, volta para Ele também de forma eterna, e em cada instante de tempo. E nós, crianças, somos convidados a participar precisamente neste jogo"

"Em todas as culturas não cristãs a criança tem uma importância somente marginal, porque é simplesmente um estado que precede o homem adulto. Necessita-se da encarnação de Cristo para que possamos ver não somente a importância antropológica, mas também aquela teológica e eterna do nascer, a bem-aventurança definitiva do ser a partir de um sinal que gera e dá à luz"

"Tudo o que é humano é argila nas mãos do Criador e Redentor".

"Para os cristãos não existe qualquer motivo que os leve a restringir o conceito de espiritualidade ao espaço cristão"

"Se agora passamos a ver as coisas através da espiritualidade da ação (Aristóteles), tem de dizer-se então que ela (espiritualidade da ação) é justamente importante para o Eros absoluto. Mais ainda: ela desempenha na espiritualidade humana um papel indispensável e decisivo, no sentido de que ajuda e facilita ao Eros a consecução da sua tarefa, qual é a de permanecer ativamente no espaço mundano, visto como lugar obrigatório do seu exercício, provação, educação e purificação. Este campo de atividade é para o homem necessariamente duplo: primeiro, porque é Eros entre o Eu e o Tu, não só à dimensão sexual, como também à supra-sexual, ao nível da amizade; depois, porque é também Eros como entrega à sociedade (povo, estado, humanidade) e à comum empresa de humanidade (cultura, técnica e progresso). Esta dualidade característica do Eros assenta porém na própria essência do homem: ele é efetivamente uma pessoa exclusiva, quando visto na sua relação ao corpo. Mas simultaneamente ele é também espírito e como tal aberto e obrigado a ser universal (…) Em todo o caso, é devido à estrutura do Eros, olhado como desejo de realização do Espírito, que o homem se sente obrigado a colaborar com os outros homens para a construção do mundo, sem com isto dizer que o Eros deve terminar a sua atividade no espaço humano ou mundano"

"A estrutura interior do Evangelho exige que, para imitar a Cristo, o homem tenha de arriscar tudo numa só jogada, sem se importar com mais nada. O deixar tudo é absoluto e exclui até o olhar para trás, pela última vez, exclui qualquer conciliação entre seguir Jesus e o adeus à casa paterna, entre Jesus e o dever de sepultar o próprio pai, entre Jesus e qualquer outra coisa que pudesse condicionar o caráter absoluto da entrega"

"Tudo depende – se quisermos ver autenticamente segundo o Espírito Santo – da capacidade de redescobrir o Evangelho através duma nova abertura interior. E quanto mais direta e profundamente a abertura do olhar interior conduzir para o centro do Evangelho, tanto mais verdadeira e eclesial será então a espiritualidade. Nenhum enviado verdadeiro acreditou ou pretendeu fundar, através da missão que lhe foi confiada, uma nova espiritualidade. Por isso mesmo se tornam desde o princípio suspeitas, e com toda a probabilidade estéreis, as tentativas dum indivíduo, dum grupo ou dum Estado, para criar e configurar até ao último pormenor uma espiritualidade nova e própria. Os grupos aos quais o Espírito não presenteou com carismas especiais devem estar agradecidos com o fato de poderem permanecer no anonimato da Ecclesia ancilla e nele poderem levar a cabo uma existência dedicada ao serviço do amor"

"Deus é o fim último das criaturas: ele é o céu para quem o alcança, o inferno para quem o perde, o juízo para quem por ele é examinado, o purgatório para quem é por ele purificado... e tudo isto no modo em que ele dirigiu-se ao mundo, isto é, no seu Filho, Jesus Cristo, que é a possibilidade de revelação de Deus e, portanto, a síntese das coisas últimas."